Skylab, aposentado.

Durante os 29 anos em que trabalhou para o Banco do Brasil, o músico e poeta Rogério Skylab não deve ter passado um único dia sem cometer um delito compulsivo. Silenciosamente, “como quem fabrica uma bomba”, burlava a rotina da repartição matutando versos e esboçando músicas na cabeça. Era sua forma de respirar – ou, como define, de abrir um buraco no tempo. “Eu roubava instantes. A idéia do roubo, em geral, é muito atraente para mim. Sou um ladrão de músicas alheias, me aproprio para pervertê-las”, confessa. Foi assim que Passaredo, de Chico Buarque, originou a sádica Matador de passarinho, até hoje o maior sucesso do mito do underground carioca.

Passou o tempo em que Rogério Tolomei Teixeira tinha que madrugar para bater o ponto às 8h na sede administrativa do Banco do Brasil, na zona norte do Rio. Labutou seis horas por dia nos setores de compensação de cheques e em inúmeros serviços burocráticos internos. No início deste ano, sua alforria foi finalmente decretada: o banco o colocou num plano de aposentadoria compulsória. “A verdade é que o Banco do Brasil não teve importância nenhuma na minha vida, sempre foi só um apêndice. A única coisa boa é que me deu dinheiro para produzir discos. No final eu já nem trabalhava mais, só ficava lá”, desmerece Skylab, querendo passar logo para um assunto mais interessante.

No batente, quase pregava os olhos – costumava dormir às três da manhã para acordar às seis. Mais do que um estado físico, a sonolência é uma outra forma de percepção da realidade, diz ele: “Não vejo muita graça em estar lúcido e consciente. Como durmo pouco, sempre estou um pouco à margem do que acontece. Se estivesse totalmente acordado, provavelmente iria querer saber de coisas práticas. O torpor é a minha condição para criar”.

Mas como descrever a música de Rogério Skylab? Títulos como Câncer no cu e Meu pau fica duro dão uma mostra de seu apreço por temas, digamos, ofensivos. “A escatologia se opõe à tradição da musica brasileira, à consciência e ao coração. Minha música é ligada ao corpo, é fisiológica”, teoriza. Skylab nega, no entanto, que o objetivo seja chocar os ouvintes desavisados: “A realidade se tornou tão radical que ninguém mais se choca com nada. Em Câncer no Cu eu estou falando sobre morte, uma preocupação filosófica minha. Não tem nada de querer chocar”.

Um pino no maxilar

Artista conceitual brilhante, poeta medíocre, doido varrido: as opiniões costumam divergir. Em duas horas de conversa, comprova-se que Skylab – um tipo tranqüilo, muito intelectualizado e cerebral, que adora expor suas teorias sobre os assuntos mais vastos – não é nada louco. Seu problema, garante, é ser por demasiado comum. “Eu não tenho nenhum problema neurológico. Meu negócio é partir da racionalidade para chegar à loucura. Pode parecer que não, mas tenho total controle sobre tudo o que escrevo”, assegura.

Iconoclasta, parece ter prazer em demonstrar desprezo pelas tendências políticas do momento: “Não gosto desse discurso ecológico, de preservação ambiental. Minha idéia de natureza está muito mais ligada à physis dos gregos, que tem mais a ver com o desequilíbrio e a desorganização, do que com a idéia de um ecossistema”, provoca. O grotesco e a deformidade são, de fato, temas fundamentais em sua obra. A capa do disco Skylab VI traz uma foto sua, o rosto inchado e enfaixado, recém-saído da sala de cirurgia, onde operara a mandíbula fraturada em um tombo. Provocação gratuita? “Queria trazer mesmo a idéia do acidente. Até hoje levo um pino no maxilar. A estética do corpo artificial sempre me seduziu. Me interesso por esse novo corpo do homem moderno, com próteses, balas perdidas alojadas. Minha música fala da anti-natureza”, explica.

Habitué das bibliotecas da cidade, onde atualmente passa a maior parte do seu tempo, Skylab dá as costas para as belezas naturais do Rio. Sua música soturna remete a uma outra visão sobre a cidade: “Não posso falar desse Rio cartão-postal, e sim de um Rio pessoal”. A periferia e os problemas sociais também não o inspiram: “Tem gente que fala sobre o trem da Central do Brasil, mas você vê que o narrador não conhece nada daquilo. Ele fala do funk sem a menor noção do que seja. É o problema do Fausto Fawcett, da Fernanda Abreu”, alfineta.

Fama, repetição e neurose

Difícil mesmo é rotular Skylab. De Frank Zappa a Arrigo Barnabé, passando pelo punk e alguma coisa do samba carioca, ele mistura tudo em seu liquidificador ensandecido. A tropicália – seu assunto preferido – parece ser, ao mesmo tempo, o que mais o inspira e aquilo a que sua música se contrapõe: “O que eu incorporei do tropicalismo foi essa idéia da vanguarda, da experimentação. Mas aquele foi um momento de passagem na música brasileira. Eles ainda eram muito racionais, ainda queriam passar mensagens”, compara.

Mas se agora o importante não é mais dizer alguma coisa, e sim afetar o corpo, o que difere a música conceitual de Skylab do nonsense involuntário de um Latino? “Tenho completo domínio do material com que trabalho, por isso posso usá-lo aleatoriamente. A musica irracional que eu faço não vem do vazio, vem como uma resposta à tradição da nossa cultura”, explica.

Obcecado pela idéia de repetição, Skylab produz em série: acaba de lançar o seu oitavo disco, Skylab VII, e no ano passado publicou o livro de poesias Debaixo das rodas de um automóvel. Longe de qualquer ambição de freqüentar paradas de sucesso, não abre mão de ser independente. Isso não quer dizer que não saiba se divulgar muito bem: desde o fim da década de 90, é o entrevistado mais popular do programa do Jô. O público, às vezes, se desmancha de rir, o que não costuma incomodá-lo: “Não faço música com a intenção de humor, mas sou completamente neutro em relação à risada. Cada um entende como puder. Não sei nem se meu trabalho tem uma intenção. Talvez seja mais o sintoma de um neurótico”.

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