Onde nasceu Mané Garrincha

O berço do craque

O Esporte Clube Pau Grande seria apenas mais uma modesta e simpática equipe de futebol amador, cujo grande feito foi ter vencido algumas vezes o torneio da cidade, não fosse o fato de ter revelado Garrincha aos 14 anos, em 1947. Fundado em 11 de agosto de 1908 por operários da América Fabril, uma antiga fábrica de tecidos, o clube acaba de completar cem anos. Em sua pequena cantina, tecelões aposentados e de barrigas salientes tomam cerveja, conversam e jogam buraco. Mais tarde, conforme o horário comercial vai findando, os jovens começam a chegar. Assim passam-se os dias em Pau Grande, distrito de Magé, no interior do Rio.

Foto: Rony Maltz
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Uma vila operária

As ruas de Pau Grande são bucólicas e silenciosas. Os moradores, em sua maioria idosos, conversam em voz baixa nas varandas das casas. A antiga vila operária ainda tem cerca de oito mil habitantes e fica no pé da Serra dos Órgãos, rica em fontes de água. A história do lugar remonta ao fim do século XIX, quando a Companhia América Fabril, multinacional inglesa da indústria têxtil, comprou um vasto terreno onde só havia Mata Atlântica. No coração da floresta, a empresa ergueu uma grande fábrica, uma vila para 1.200 operários e suas famílias, um posto médico e uma escola.

Foto: Rony Maltz
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Centenário Discreto

Como só a metade dos 150 sócios paga em dia a mensalidade de R$ 5, as comemorações do centenário do EC Pau Grande tiveram que ser modestas: churrasco no sábado, baile e almoço no domingo. A única personalidade a aparecer foi a ex-governadora Benedita da Silva, madrinha de um projeto para crianças carentes. Mesmo assim, a festa varou a madrugada e fez os mais velhos lembrarem a época em que o Pau Grande promovia disputados bailes, ao som de uma orquestra que tocava valsa e foxtrot.

Foto: Rony Maltz
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Não tinha pra ninguém

Sentado numa espreguiçadeira na varanda de sua casa, o tecelão aposentado Roberto Leite Rodrigues lembra o tempo em que presidiu o EC Pau Grande, entre os anos 40 e 50. “Ganhávamos de todo mundo que vinha nos desafiar. Não tinha pra ninguém”, exagera. O clube foi fundado por operários brasileiros, e o futebol, levado por engenheiros bretões, logo conquistou adeptos. A fábrica, extinta nos anos 80, tomava conta do time. “Hoje o clube está jogado às traças”, protesta Roberto.

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Foto: Rony Maltz

O primeiro técnico

Garrincha era sacana, brincalhão e flamenguista. Um cara simples”, conta Antonio José de Souza, o Toti, primeiro treinador do craque. “Lembro dele, já depois de famoso, voltando do Maracanã na caçamba do caminhão com o povo de Pau Grande”, lembra, aos 85 anos. Quando ele avançou Garrincha para a ponta-direita, os torcedores do time protestaram, num abaixo-assinado para que ele voltasse à meia-direita. O técnico resistiu à pressão, e o menino de pernas tortas se consagraria na nova posição.

Foto: Rony Maltz
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Uniformes e troféus

Uma vitrine com troféus, uniformes e fotografias de Garrincha registra as glórias do Pau Grande. Há pouco tempo, as pequenas arquibancadas foram pintadas de branco, e os vestiários passaram por reformas. Tudo graças a um empresário português, dono de uma grande loja de material de construção no Rio e fanático por Mané, apesar de torcedor do Vasco da Gama. Mas o benfeitor adoeceu, e a ajuda, por hora, cessou.

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Um gigante adormecido

Além das parcas mensalidades, o clube vive da renda do bar e do aluguel do acanhado Estádio Mané Garrincha para shows e peladas. No último Sete de Setembro, o Pau Grande sediou uma festa para 7.500 pessoas ao som do Monobloco. “Isso aqui é um gigante adormecido. Temos que resuscitá-lo”, anima-se o presidente do clube, Carlos Renato Teixeira. Ele sucedeu o pai no cargo e sonha levar a equipe à primeira divisão do Campeonato Carioca. Por ora, o time só disputa amistosos – por falta de patrocínio, a Liga Mageense está parada desde 2002.

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Foto: Rony Maltz

Futebol e hambúrguer

Aos 25 anos, Carlos Renato, que diz ter jogado no juvenil do Santos com Diego e Robinho, estreou com otimismo vida de cartola. Em tom misterioso, ele revela planos de parceria com um empresário americano, que teria se apaixonado pela história do Pau Grande e estaria disposto a financiar a construção de um grande estádio e um centro de treinamento. O dirigente ainda acalenta mais um sonho fora das quatro linhas: abrir uma franquia do McDonalds.

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