Flores e bofetões

A História de Jece Valadão

Jece Valadão, o cara mais durão do cinema nacional, entrou pelo cano eterno em 27 de novembro, aos 76 anos. Morreu sem fazer café, acender fogão ou arrumar a casa. “Minhas mulheres sempre fizeram isso pra mim”, contava o homem que, com mais de cem filmes e 50 peças de teatro nas costas, ficou marcado pelo estigma de cafajeste. Sexista confesso, chauvinista convicto, foi o irascível paradigma do macho brasileiro.

Nascido em Cachoeiro do Itapemirim (ES), o garoto de família pobre fez de tudo um pouco e aos 8 anos já era aprendiz de alfaiate. Só subiu num palco aos 18, quando começou a trabalhar como radioator em emissoras do interior. Mais tarde, transferiu-se para a badalada Rádio Tupi, no Rio de Janeiro. Daí para o cinema, foi um pulo: em 1949, conseguiu um papel secundário em Também Somos Irmãos, de José Carlos Burle, lançado pela Atlântida – a grande produtora brasileira de cinema nos anos 40 e 50. A partir de então, engatou alguns papéis de maior destaque, até se consagrar na pele do malandro Miro em Rio 40 graus, de Nelson Pereira dos Santos. Ajudou a fundar o Cinema Novo e lançou as bases do mito do cafajeste, que encarnaria pelo resto da vida.

A mistura indissociável de ator e personagem alçou Jece ao posto de muso do Cinema Novo, apesar das diferenças com os principais nomes do movimento. “Eles eram muito comunistas, e eu não”, explicava. Os então jovens cineastas encontraram no rosto comum e bruto de Jece Valadão as expressões do protagonista perfeito para histórias de um Brasil profundo que queriam contar. Equilibrando-se na fronteira permeável que separava sua vida de seu trabalho, Jece construiu o mito do cafajeste. Um arquétipo tipicamente brasileiro e essencialmente carioca, como gostava de dizer.

Jece Valadao - O malandro Miro em "Rio 40 Graus" (1955)
O malandro Miro em “Rio 40 Graus” (1955)

Garçonnière de emergência

Daí em diante, Jece encarnou muitas vezes nas telas o canalha que sabia ser fora delas. Voltou a filmar com Nelson Pereira dos Santos em Rio Zona Norte, de 1957 e, pouco tempo depois, se tornou jurado do programa de calouros de Chacrinha. O trabalho com o Velho Guerreiro ajudou a cimentar o estigma de cafajeste: Jece sempre tinha um comentário machista a fazer. Era aplaudido pelos rapazes e vaiado pelas moças da platéia. Pedro de Lara com sex appeal.

O personagem seria imortalizado no ousado Os cafajestes, de Ruy Guerra, na pele de um escroque chantagista e mulherengo. Depois disso, Jece foi Baby, o vidente charlatão de O Mau caráter; o bicheiro Boca de Ouro; o bandido Mineirinho, em Mineirinho vivo ou morto; foi O Cristo Índio em A idade da Terra, de Glauber Rocha e encarou sem reclamar uma boa dezena de pornochanchadas – ou “comédias urbanas eróticas inspiradas na literatura”, como preferia chamá-las. De 1949 a 1995, manteve uma média de quase um filme por ano e não é exagero dizer que deu importantes contribuições para algumas das melhores produções brasileiras de todos os tempos como ator, produtor ou diretor.

Nesse período, Jece se casou cinco vezes e teve um belo punhado de aventuras extraconjugais. Vivia num apartamento com a esposa da vez, encontrava em outro a amante oficial e mantinha uma garçonnière de emergência para “atender às aflitas”. Em suas múltiplas e movimentadas alcovas, fez nove filhos, dos quais reconheceu apenas cinco; os demais foram criados por outros homens. Mesmo dos herdeiros que considerava legítimos, Jece foi pai ausente e tornou-se célebre o episódio em que presenteou um filho de 7 anos com um fusca para compensar a falta de carinho.

Ao fim do casamento com a atriz Vera Gimenez – o quarto do currículo – Jece se deu conta de que nunca havia estado plenamente solteiro, apesar da alta rotatividade de amantes. Foi quando decidiu montar a Garçonnière Fundamental num apartamento duplex em Copacabana. Ao entrar no recinto, a moça da vez – “uma por dia” – não deveria ter dúvidas sobre o que aconteceria momentos depois. A porta da frente, ao se abrir, disparava sensores que acionavam uma cama que se desdobrava milagrosamente da parede, a água da piscina térmica do segundo andar começava a esquentar, um armário se transformava em bar e acendia-se uma luz tênue. “Mandei fazer tudo de propósito”, dizia, “a menina tinha que entrar e pensar: vou ter que dar”. Na portaria, um leão de chácara impedia que mulheres que carregassem pasta de dente na bolsa entrassem no recinto. “Aí já era mudança. Eu não queria mulher se mudando pra lá”, contava Jece.

E Jece encontra Jesus. Via Bamerindus

Há dez anos, porém, o Jece Valadão que “bebia uma garrafa de uísque de uma sentada”, o ídolo máximo dos fãs das “comédias urbanas eróticas baseadas na literatura“, o eterno mau caráter e ateu convicto, morreu pela primeira vez para renascer evangélico. A grande fera foi domada pelo Senhor quando teve um pedido bastante mundano atendido pelos céus. Ele contava emocionado que, à beira da bancarrota e já tentado à conversão por um pastor evangélico, mandou um recado ao Filho do Homem em um pedaço de papel que foi parar em uma dessas fogueiras santas: “Jesus, estou enfrentando um problema muito sério de umas duplicatas no Bamerindus. Resolve-o”, ordenou. Foi batata. Assembléia de Deus nele.

Jece parou de bater em mulher, abandonou a bebida e se arrependeu de ter sido um mau pai para seus nove filhos. Costumava dizer que Deus o havia afastado do meio artístico, quando explicava a década em que esteve ausente das telas. Durante esse tempo, viveu de “ofertas” e da venda de Cds em que gravava o testemunho de sua conversão. Há pouco mais de um ano, no entanto, Jece voltou a atuar em algumas séries e novelas da TV Globo e na minissérie Filhos do Carnaval, exibida pelo canal a cabo HBO. Antes de morrer, chegou a gravar algumas cenas de A encarnação do diabo, novo filme de Zé do Caixão.

Valadão se dizia um homem recuperado e garantia que o canalha pecaminoso tinha ficado no passado. No entanto, não se furtava a relembrar com gosto sua antiga vida e não hesitava em aliviar a barra do cafajeste que, dizia, era apenas “um sujeito que, com a mesma dignidade que dá uma bofetada na cara de uma mulher, dá a ela uma flor – um amigo fiel e um amante adorado”.

 

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