Bruno Surfistinha

Um político que se excita vestindo lingerie, um homem que gosta de ver a namorada transar com outro, um casal de lésbicas querendo apimentar a relação, um gay apaixonado que paga apenas para conversar. Gente de todos os tipos busca os serviços de Eric Portenho, nome fictício de um paulista de 19 anos que, sem muito alarde, narra sua vida de garoto de programa na internet. “A maioria dos meus clientes é de homens casados com mulheres. Eu não sei como explicar, também não sou ninguém para julgá-los, mas acho que são uns covardes”, disse ele ao Palma Louca. Relatos e opiniões polêmicas como essa têm atraído cada vez mais visitantes para o blog de Eric, que foi ao ar em dezembro de 2008.

Indiferente a comparações com Bruna Surfistinha, a prostituta que transformou um blog em best-seller, Eric diz que não pretende ficar famoso, muito menos lançar um livro. A ideia de abrir a própria intimidade surgiu a partir de uma espécie de crise existencial. “Estava numa fase de muitos conflitos, comecei a achar que estava louco ou que era anormal. Então resolvi escrever para colocar todos esses sentimentos para fora”, explica.

A internet é o espaço que ele encontrou para contar suas experiências. E também foi na rede que ele iniciou sua carreira de michê. Sem saber muito bem por onde começar, e com medo de se expor em anúncios, Eric passou a frequentar salas de bate-papo de gays, bissexuais e adeptos de swing com um apelido que o identificava como garoto de programa. Até hoje, a internet é sua principal fonte de contato com clientes. Só quando o movimento está ruim ele apela para as boates, onde tem que dividir o lucro, ou mesmo para as ruas.

Mesmo com nome falso, um cliente já se identificou no blog No blog, Eric conta histórias como a do dia em que descobriu, com amigos, que o Parque do Ibirapuera era um bom lugar para encontrar clientes. “Eu não sei como funciona, mas o número de gays enrustidos lá é enorme. Então naquele dia apenas saímos paquerando. Quando alguém demonstrava interesse, dávamos o preço”, conta. O sucesso do blog foi mais rápido do que ele previa. “Coloquei um contador de visitas e fiquei espantado, porque estava recebendo mil pessoas por dia. Me senti invadido, tive vontade de deletar tudo, mas isso seria dar muita atenção ao que os outros pensam. Então só passei a tomar cuidado para não passar informações pessoais”, disse ele, que concordou em falar com o Palma Louca desde que sua identidade permanecesse em segredo.

Mesmo com todos os cuidados para preservar os personagens com nomes falsos, os relatos já renderam reclamações de um clientes. “Eu não falo do blog, mas um deles me achou no google e, apesar de eu mudar nomes de pessoas e lugares, se identificou e me ligou imediatamente”. O cuidado é reforçado porque Eric ainda mora com a família. “Apesar de eles serem liberais ao extremo, não sabem que faço programa, e provavelmente não desconfiam”, acredita ele, que é estudante do primeiro período de Educação Física e diz aproveitar o tempo livre como qualquer garoto da sua idade. “Faço karatê, gosto de esportes”.

Dizendo-se disposto a encarar quase tudo, Eric afirma não ter preferência entre transar com homens ou mulheres. “Mulheres são mais carinhosas, tímidas, e te tratam como um namorado. Já os homens tratam garotos de programa como máquinas de sexo”. Também existem, claro, os clientes que tentam mais que um programa. “Nunca me apaixonei por nenhum cliente. Alguns dizem estar apaixonados por mim, já chegaram a me pedir em casamento. Mas os que não estavam mentindo não eram pessoas muito equilibradas emocionalmente”, diz ele, antes de admitir a dúvida sobre a própria opção sexual: “Sinceramente, não sei. Eu me sinto atraído emocionalmente e sexualmente por mulheres. Por homens, só sexualmente. Por isso prefiro não me rotular como hétero, gay, ou bi”.

Camisinha estourada, teste de Aids e fantasias bizarras

O michê expõe não só os detalhes de seus programas, como também os seus dramas pessoais. Descreve, por exemplo, o dia em que a camisinha estourou no meio de uma suruba de réveillon, e seu desespero ao fazer o teste de HIV, meses depois. Outro drama narrado é o abandono por uma menina que o rejeitou ao saber que ele era garoto de programa. “Tenho poucos amigos, mas todos sabem e aceitam numa boa. Mas sempre rola um espanto quando eu conto”, admite ele.

O blog também conta algumas fantasias dos clientes. Num dos posts, Eric narra o encontro com um que pagou para que ele e outros garotos de programa urinassem em seu corpo. “Todos nós temos um pouco de louco. Mas no quarto, quando está pagando, o cliente se sente no direito de esquecer seu lado racional. E é ai que as bizarrices acontecem”, diz ele. Em outro programa, Eric teve que defecar em um homem que sentia prazer espalhando as fezes pelo corpo e se masturbando ao mesmo tempo. Ele conta que recusou de cara, mas o cliente aumentou a proposta e a grana falou mais alto que o nojo. “Também existem clientes que curtem chulé, cheiro de axilas, e assim por diante. O ser humano é bem exótico. O que é estranho e nojento para uns é prazeroso para outros”, constata. “E não é fácil transar com alguém que te causa repulsa”.

Em alguns posts, Eric diz que cobra em média R$ 150 por programa. Na entrevista ao Palma, não quis revelar quanto fatura por mês. “Depende da minha disposição de trabalho”, admite. “Quem falou que prostituição é dinheiro fácil nunca fez programa. Pode ser dinheiro rápido, mas de fácil não tem nada”. Em São Paulo, o michê conta que a concorrência está cada vez mais acirrada e desleal: “As coisas estão ficando difíceis. Tem dependentes químicos que se prostituem, e no auge do desejo por droga, acabam cobrando até R$ 5 por programa”.

Quanto ao preconceito, ele garante que não liga para o que os outros pensam. “Nunca me importei muito com a opinião da sociedade. Tenho amigos e amigas que não trabalham com sexo e trocam de parceiros com tanta frequência quanto eu, apenas porque gostam. Mas eu, só porque cobro, estou errado”, protesta Eric, que pensa em investir o que ganha em imóveis. “Meu plano é a construção de casas para aluguel. Vou começar com imóveis pequenos. Num futuro distante, pretendo ter muitos”.

PS: Em 11 de julho, dias depois do último contato com o Palma, Eric usou o blog para revelar seu nome verdadeiro, Diogo, e anunciar o fim da vida de garoto de programa. “Percebi que o Eric estava se despedindo e que a partir daquele momento ele não faria mais parte da minha personalidade”, escreveu, após narrar o programa derradeiro. O post não mencionou os planos imobiliários do agora ex-michê.

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