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O que restou do Píer

Píer, no Rio dos anos 70, um grupo de jovens amigos levava exatamente a vida que pediu: faculdade pela manhã, maconha a tarde inteira, um rock à noite.

Muita poesia. E praia. Em Ipanema, no Posto Nove, experimentavam os significados do termo desbunde e, mesmo sem saber, já participavam da tal contracultura.

Nos fins de semana, uma estrada empoeirada os levava para um sítio que fazia as vezes de comunidade hippie.

Trocaram os relógios por jegues, compraram batas indianas, deixaram o cabelo crescer. Lá, mais poesia.

Nas veias, nas paredes, nos varais. Nas letras de música. A poesia falada, liberta dos livros. Os versos se tornaram um movimento artístico, uma vanguarda: a poesia marginal.

Graças ao Nuvem Cigana durante uma alucinação, um deles jurou que viu uma nuvem meio arroxeada no céu, “assim, meio cigana”, e acabou batizando o grupo nasceram várias manifestações coletivas no país: o teatro besteirol, a renovação do carnaval de rua carioca, o rock da década de 80.

O ácido abria as portas da percepção, e abriu tanto que os bichos-grilo deixaram passar uma geração inteira.

Alguns não deram conta de tanta loucura e acabaram se jogando da janela, como os poetas Guilherme Mandaro e Ana Cristina César. Outros sobreviveram às turbulências e, 30 anos depois, resolveram pôr todas essas histórias no papel.

Dessa vez, sem cheiro de mimeógrafo. Bernardo Vilhena, Ronaldo Santos, Charles Peixoto e Chacal, entre outros integrantes do grupo, acabam de lançar o livro Nuvem Cigana: poesia e delírio no Rio dos anos 70.

Depois do Nuvem, Bernardo foi letrista de Lobão, criou programas musicais no Multishow, fundou o selo Trama.

Ronaldo virou roteirista de tevê, assim como Charles, que criou o Armação Ilimitada e escreve os roteiros do Linha Direta, da TV Globo.

Todos têm livros de poemas engavetados, à espera de um editor. Único a seguir com afinco a carreira de poeta marginal, Chacal fala ao Palma Louca sobre o Nuvem Cigana e a contracultura.

À frente do grupo CEP 20.000, que insiste no conceito de poesia coletiva, diz que a internet pode ser o melhor suporte para uma arte livre.

***

Na década de 70, a contracultura estava concentrada em movimentos coletivos como o Nuvem Cigana, os CPCs… onde ela se esconde hoje?
 
É difícil localizar. O sistema absorveu todas as manifestações. Nos anos 70, o sistema era muito forte e fechado.

Ou o ‘american way of life’, ou a ditadura. Então ser contra isso era muito fácil. Hoje em dia o sistema absorve todas estas manifestações.

Por exemplo, no cinema, você tem um Claudio Assis (diretor dos filmes ‘Amarelo Manga’ e ‘Baixio das Bestas’) que seria totalmente contracultura, marginal, nos anos 70, mas que hoje em dia faz parte do sistema, foi absorvido.

Ele discute com isso, mas não tem aquela postura, né… Nos anos 70, a ditadura serviu também como um facilitador, por incrível que pareça.

O inimigo tinha corpo. Era um espantalho. Um espantalho bufo. Aquela coisa pesada e violenta, mas estava distante.

Então a gente se acomodava ao nomear os vilões. Nós somos os mocinhos, eles são os vilões. E não é tão certo pensar assim. Mas estávamos tentando.

Te preocupa o sistema ter absorvido a arte?

Me preocupa, sim. A arte tem de estar sempre provocando o sistema, quando o sistema te absorve dá uma certa sensação de vazio…

Eu acho que hoje em dia se trabalha demais em cima do mercado… até o cinema marginal, de autoria, se trabalha dentro do mercado. Acho que a única arte que ainda pode se permitir enfrentar o sistema é a poesia, porque não tem valor de mercado.

Não é uma coisa da indústria cultural, ela não absorve. Acho que o CEP 20.000 é um grande foco da contracultura atualmente.

Ele não está discutindo com o mercado, ele tá discutindo com a arte, com a necessidade de fazer arte, de se expressar.

Ou o Orlândia, (um grupo de artistas que ocupa uma casa em Botafogo com instalações), ou o Reperiferia (Projeto de integração da Baixada Fluminense nos ambientes urbanos), de repente.

Eles não estão fazendo arte para o mercado, estão fazendo arte para se realizarem como artistas. Em busca de uma possibilidade de expressão. Acho que é essa a função da arte.

Qual a importância de contar as histórias do Nuvem Cigana?

A memória no Brasil é tratada a pontapés. As pessoas que estão vindo precisam de uma lanterna.

Senão vão achar que são frutos de uma geração espontânea, sem referência qualquer. Quem faz poesia precisa saber o que foi o Nuvem Cigana.

Assim como quem faz teatro precisa saber a importância do Asdrúbal Trouxe o Trombone, quem faz música, os Novos Baianos, e por aí vai.

Numa passagem do livro, você diz que algumas pessoas têm a doença da sua época. Hoje, qual é a sua doença? Ou você já está curado?

A doença que existe hoje não me interessa. É a doença do individualismo. Cada um cuidando de si, e a idéia do coletivo, da utopia, se desfez, de certa forma.

Acho, por exemplo, um cara que tem a doença de hoje, o Michel Melamed. Meu querido amigo Michel Melamed.

Que faz muito bem o trabalho dele, extremamente competente, mas que é, entre outras coisas, individual.
 
O poeta marginal, que mimeografava suas poesias, agora lança um livro, que, como você mesmo diz, “fica em pé”…

Eu fico muito satisfeito de ter livro nas livrarias! Há 20 anos eu não tenho livro em livraria. Por mais que eu fique um pouco descrente, pois sou um poeta que não acredita muito no livro…

Prefiro falar minhas poesias, fazer meus blogs. Eu me sinto muito gauche dentro do mundo literário, eu não tenho vaidade com isso…

Como é a audiência das suas poesias nos blogs?

Eu acho que a gente ainda está engatinhando no meio digital. Ele ainda é recente para o que a gente ainda vai fazer com ele, e para o que a gente ainda conhece, eu, pelo menos. Eu não conheço o suficiente para botar cheiro nos meus poemas.

Espero que um dia eu consiga. Ao vivo, eu consigo. E sempre importante buscar estas novas formas não só por uma questão novidadeira, o que importa e a poesia.

Quem determina o que e a poesia em si? Meia dúzia de acadêmicos? O retorno é muito interessante. Eu tenho dois blogs (www.chacalog.zip.nete www.cep.zip.net) com quase 80 mil visitações…

isso para mim é inacreditável… no auge da minha carreira de poeta, se é que eu posso falar assim, eu vendi 6 mil livros. Mas você não sabe quem leu, qual a opinião, o livro não te dá este retorno.

Como está o CEP 20.000?

O CEP está sempre vivo. Alunos de segundo grau estão aderindo. Estão ralando para aprender, mas têm desejo, então vão ter talento.

E agora estamos no Teatro do Jockey. Estávamos no Sergio Porto há 16 anos, mas o teatro sofreu um abalo, não só com o incêndio, mas com a programação, que caiu muito a qualidade.

A poesia marginal, como era, morreu?

A gente é esquecido. A academia… (hesita) apesar de estar em antologias, de ser citado sempre… é aquela coisa assim: reconhecemos que foi um acontecimento, e ajudou a poesia brasileira a sair de uma coisa caquética, de uma coisa rigorosa, formal, como era o concretismo, a geração de 45, ou uma coisa engajada, como a poesia dos anos 60, que trouxe novamente alegria e tal.

Mas… fiquem por aí, porque valor literário… valor poético, não existe. Mas ao reler o livro na revisão… eu vi que escrevo bem. Eu não gastei 36 anos da minha vida como farsante. E eu tinha medo disso, desse confronto comigo mesmo.

Foto: Cafi.

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