Rio de antigamente

Papo de roça

Na porta da venda, o compadre, de bigode e sem camisa, pergunta animado: “Rapaz, você viu que o mamoeiro já está carregado?” O assunto é de roça, mas estamos no alto do Morro da Conceição, a menos de cinco minutos da mais barulhenta avenida carioca, a Rio Branco. O lugar parece parado no tempo. Sentado à mesa do armazém, o repórter ouve a conversa do bigodudo Pará, que bebe cerveja gelada no balcão. Chama-se Jaime Rayol e não gosta de vestir blusa. “Não uso nem para ir no banco”, exagera.

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Invasões piratas

A tranquilidade é garantida pela Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, ainda ocupada pelo Exército. Os primeiros muros foram erguidos no fim do século 17, depois de o Rio ter sido invadido pelo pirata francês Duguay-Trouin. O morro era um dos quatro que delimitavam a área da antiga cidade. Durante a invasão, que aterrorizou a população da vila, os piratas derrubaram a Igreja de São Francisco da Prainha (foto). O templo barroco foi reconstruído em 1740.

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Marinheiros e imigrantes

Como fica próximo ao porto do Rio (ao fundo), o Morro da Conceição começou a ser ocupado por marinheiros e imigrantes, principalmente portugueses recém-chegados ao país. Eles ergueram as casas simples que preservam o ar de Rio antigo da comunidade. “Vim aqui pela primeira vez com um arquiteto de Portugal. Ao andar por essas ruas, ele disse se sentir na cidade do Porto”, lembra a documentarista Cristiana Grumbach. Este ano, ela lançou um filme sobre os oito moradores mais velhos da encosta.

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Berço do pandeiro

No fim do século 19, com a expansão da cidade em direção à zona sul, o Morro da Conceição perdeu valor imobiliário e virou reduto de escravos recém-libertos. Eles se reuniam na Pedra do Sal, um dos nove acessos ao morro, para festejar a cultura negra em rodas de capoeira e cultos de umbanda. O local é conhecido como Pequena África e fica ao lado do largo João da Baiana, batizado em homenagem ao neto de escravos que introduziu o pandeiro no samba. Além de músico, ele foi estivador, cocheiro e ajudante de circo.

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Chave na ignição

Parece que o tempo esqueceu a pequena elevação, escondida entre os arranha-céus do Centro do Rio. “O armazém ainda tem caderno para anotar as dívidas”, conta o aposentado René Vieira, 64. Os moradores deixam portas entreabertas e sentam para conversar na calçada. Os motoristas deixam a chave na ignição, gesto impensável em outros bairros do Rio. Ainda se pode apreciar sacolé (sorvete de fruta artesanal) de diversos sabores ou comer um salgado no armazém a preço de antigamente: R$ 1.

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O progresso sobre rodas

As ruas foram abertas na época da construção da fortaleza; entre elas a Rua do Jogo da Bola, de 1711, que mantém traçado semelhante ao original. “Só um morador tinha carro, aquele Citröen 2 cilindros. Depois tiveram que alargar a curva”, explica René. O calçamento não é mais de pé-de-moleque, pedras afixadas pelos escravos no Rio colonial. Uma pena, mas não para René. “Os políticos só aparecem nas eleições. A única coisa boa que fizeram aqui foi calçar a rua”, discursa.

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Diversão de antigamente

Antes de deixar o armazém, o repórter acompanha uma divertida partida de aliado, jogo de tabuleiro trazido por marinheiros que se instalaram no morro. O último campeonato reuniu dez duplas e foi vencido por Pará e René, o responsável pelo regulamento. Ele leva o jogo a sério: já buscou informações na biblioteca do Clube Naval e planeja visita ao serviço de documentação da Marinha. “O nome do jogo era oleado, mas virou aliado. É como a história do forró (ritmo popular nordestino), que nasceu do ‘for all'”, explica o campeão.

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