Profissão: coveiro

Quinta-feira de poucas nuvens, sol das dez da manhã. José Carlos de Lima, 41 anos, vem crescendo rapidamente a partir de uma das tantas quadras do Cemitério São João Batista, em Botafogo, o corpo parrudo tremulando abrasado, perdendo os contornos no calor emanado do asfalto.

– Não posso falar agora não, não posso falar agora não – repete, as mãos encardidas secando as suíças molhadas de suor, o rosto vermelho sob um gasto boné azul.

A esta hora, o coveiro – ou “administrador de cemitério”, como se apressa em corrigir a funcionária do SJB – já abriu a golpes de picareta uma cova rasa no alto da quadra 19 e realizou pelo menos cinco exumações. Não chove há dias, e o chão “pega fogo”, explica. As exumações consistem na retirada dos restos mortais de uma sepultura, gaveta ou cova rasa para entregá-los à família do morto numa caixinha de fibra. Seriam oito até as 15h30, horário em que José Carlos pára para o cafezinho e a entrevista, depois de cinco sepultamentos.

– Gostava de trabalhar com agricultura, mas aquilo não dá futuro. O preço é tabelado em dólar, e a gente fica dependendo da natureza – diz o coveiro, um dos dez que compõem o quadro de funcionários do cemitério.

 

Uma mulher se exalta: “Vocês não têm coração?”

José Carlos trocou a roça pelo SJB há sete anos, quando o sogro, coveiro por quase 30 anos, achou que a filha precisava de mais estabilidade para criar os dois filhos em Magé. Desde então, trabalha das 7h às 18h, folga toda quarta-feira, tem carteira assinada e ganha R$ 800 por mês; não tem religião, não acredita em vida após a morte, acha tolas todas as histórias que contam sobre cemitérios e nunca chorou num sepultamento.

– Uma vez uma mulher gritou comigo na capela: “Vocês não têm coração?” Se eu chorasse a cada enterro, já teria secado – justifica.

Sobre o ofício incomum, o coveiro argumenta que hoje em dia “não dá pra ficar escolhendo trabalho”. Luis Moreira, de 48 anos, discorda do colega. Ele é um dos 30 responsáveis pelos enterros no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju.

– Não é pela estabilidade, não é medo do desemprego, é vontade e desejo. Já vi gente trabalhar aqui uma semana e ficar maluca. Nós nascemos para isso – afirma, com convicção, o homem baixo e moreno.

 

Coveiro diz ouvir assovios no crematório

Luis começou a trabalhar na área aos 12 anos. Levava marmitas para os três tios, coveiros do Caju. Aos 18, foi para o Instituto Médico-Legal, onde passou a lavar corpos. De vez em quando tinha medo, principalmente quando os mortos “se levantavam” das macas. O sentimento só passou quando Dr. Jamin, diretor-geral do IML na época, explicou que o fenômeno era normal, causado pela liberação dos gases acumulados nos corpos.

Por querer se dedicar mais aos ossos e conhecer o ser humano por dentro, foi para o Caju, onde trabalha há tantos anos que já não sabe precisar. Enjoou, trocou de emprego: foi para uma funerária fazer remoções, preparação e ornamentação de cadáveres para sepultamentos. Há quatro anos decidiu voltar ao cemitério, onde ainda trabalha como “regra três” – de acordo com os colegas, uma espécie de zero à esquerda, que não recebe salário: apenas uma gorjeta, de R$ 10 a R$ 50, que as famílias podem dar ou não depois dos enterros.

– Gosto de ver os ossos crescendo depois da morte. Gosto também de adivinhar, pela posição deles, como os mortos dormem: de lado, de frente… o que eu não gosto é quando eles estão mumificados, cheios de formol. A pele fica ressecada – comenta Luis, um misto de coveiro-cientista e católico fervoroso que sonha ver os filhos, duas meninas e três meninos, trabalhando como peritos.

O coveiro garante que já ouviu assovios no crematório e flagrou bolas de fogo saindo das bordas de sepulturas. Para ele, quem não acredita nas histórias não tem o poder de ver.

– Mas não tenho medo da morte, porque ela é uma coisa muito linda – conclui, com um certo brilho nos olhos castanho-amarelados.

 

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Foto: Alexandre Vieira / O DIA

 

Um desejo exótico: trabalhar nos EUA

O grande sonho de Luis Moreira é trabalhar em um cemitério nos Estados Unidos. A idéia surgiu quando ele ainda estava no IML, onde vira-e-mexe encontrava um corpo de gringo:

– Tenho vontade de sentir o cheiro deles. Nós cheiramos a carne de animal putrefata, mas os americanos cheiram a batatas estragadas. Se pudesse, conheceria os cheiros das pessoas dos outros países. A gente tem que se aprofundar – teoriza.

O cheiro dos mortos era o que mais incomodava José Francisco, de 51 anos, quando ele deixou de ser gráfico e produtor de bailes funk em Realengo para se tornar coveiro, há cinco anos. Na primeira exumação, realizada com a ajuda de um colega mais experiente, teve muito nojo e se espantou ao descobrir que o serviço era realizado sem luvas. Depois, a repulsa passou.

– Estava desempregado, mas acabei gostando mesmo da profissão. O trabalho é pesado. Tem que ter bom preparo físico para carregar os caixões onde os carrinhos não passam, colocar as lajes por cima dos jazigos. Acho que é por isso que não conheço nenhuma mulher coveira. Mas tem o lado bom, que é trabalhar sem ninguém no seu pé e lidar diretamente com o público – diz, em pleno dia de folga, recostando o corpo negro e esguio num dos jazigos da quadra 13 do Caju.

 

Salário de coveiros é de R$ 800. Serventes recebem menos da metade

O “lidar com o público” não se aprende de uma hora para outra. Geralmente, entra-se num cemitério como servente. O serviço rende, no SJB, R$ 380 por mês, e funciona como uma espécie de estágio para a profissão de coveiro. O funcionário vai observando como se trabalha no cemitério e, se tiver “bom comportamento” – ou seja, se entender que não se deve falar alto ou fumar durante os sepultamentos e souber tratar as famílias com respeito – pode requisitar uma vaga de coveiro depois de algum tempo, o que eleva o salário a R$ 800.

Alguns funcionários ainda conseguem se tornar encarregados de coveiros, depois de muitos anos de trabalho e de o corpo já estar moído pela idade. Estes ganham até R$ 1.200 por mês para coordenar os colegas e geralmente podem deixar o serviço por volta das 16h, quando os coveiros ainda têm pelo menos duas horas de trabalho pesado pela frente.

– O coveiro tem que ser um pouco invisível no sepultamento, ainda que seja ele o grande condutor da cerimônia. Existe esta etiqueta – teoriza Luís Moura, que trabalhou como servente, pedreiro, condutor (profissional que leva os carrinhos com os caixões) e coveiro antes de se tornar encarregado no SJB, há cinco anos.

 

Caju

 

No código de conduta, a regra de esconder os sentimentos

Outra regra de etiqueta seguida pelos coveiros é não demonstrar emoção durante os sepultamentos. Mas há exceções, como quando um funcionário acaba sendo, ao mesmo tempo, responsável pelo sepultamento e amigo do defunto.

– Já enterrei um compadre e uma comadre. Fui eu que fiz o sepultamento, conduzi e fechei as gavetas. A gente se acostuma, não tem mais aquele negócio de choro. Mas a gente sente, a gente só sente – murmura Luis Moura, óculos escuros de aviador, entre uma tragada e outra no cigarrinho magro.

Aos 44 anos, Joel Pires, que passou metade da vida como encarregado no SJB, compara o coveiro a um médico na sala de cirurgia. É preciso controlar os sentimentos, ele explica.

– Fácil não é. Mas quando eu tinha nove anos, enterrei minha mãe num dia 12 de dezembro, meu irmão no dia 14, meu pai em janeiro e, ainda no mesmo mês, outro irmão. Nunca chorei num sepultamento – orgulha-se.

 

Há 22 anos no SJB, Joel sonha ver filhos em outra profissão

Joel, a exemplo de dois de seus irmãos, pretende se aposentar no cemitério. Está “mexendo suas papeladazinhas”, explica, abanando no ar as mãos curtidas de sol. Contrariando a regra geral, ele não quer que os filhos sigam na profissão. Diz que eles estão estudando “para ser alguém na vida”.

– Se Deus quiser, vão interromper o ciclo da família. Quando eu era criança e me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, é claro que eu nunca pensei em responder coveiro – diz, irônico.

Luis Moreira pensa diferente. Diz que nunca pensou em trabalhar com outra coisa e insiste no discurso da vocação.

– Então, não esquece de escrever aí: quero ir para os Estados Unidos – repetiria ele mais umas três vezes, antes de ouvir novas badaladas do sino e desaparecer no labirinto de aléias do Caju.

Foto em destaque:http://ayrton.com

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