Políticas do som na obra de David Bowie

Maybe I’m born right out of my time.

(Thursday’s Child, 1999, David Bowie)

Na manhã do dia seguinte ao 10 de janeiro de 2016, recebi uma mensagem pelo whats app às 6.30 da manhã. Um amigo me avisava: David Bowie morreu. A notícia chegou como um soco no estômago… Essa foi a primeira e a mais contundente de uma série de perdas de músicos notáveis durante o ano passado (tais como Prince, Leonard Cohen, Naná Vasconcelos, entre tantos outros). Confesso que o mundo me pareceu um lugar ainda um pouco mais solitário a partir desse dia. Assim como de muitos outros fãs espalhados pelo mundo, a música de David Bowie também fez e continua fazendo a trilha sonora principal da minha vida há mais de trinta anos. Por mais bizarro que pareça, sua voz me é muito mais familiar e presente do que de alguns dos meus parentes e amigos. De alguma maneira sentia uma afinidade entre o que ele fazia na música e o que eu procurava fazer na filosofia.

Uma das minhas músicas prediletas, por exemplo, se chama Sound and Vision (1977) do álbum Low, composta na época que o compositor morava em Berlim. Começa com um riff simples, mas contagiante de guitarra, acompanhada por um toque firme de contrabaixo. Depois de algum tempo aparece o som futurista de um sintetizador, algumas vocalizações e aos poucos um coro de backing vocals feminino, dando um tom quase alegre à canção. Mas eis que depois de quase dois minutos da introdução instrumental há uma mudança de andamento da guitarra e uma voz triste surge do nada com a pergunta intrigante: “Don’t you wonder sometimes, ‘bout sound and vision?” “Você não se espanta às vezes com som e visão?” Ou melhor, “Você não se pergunta às vezes sobre som e visão?” Definitivamente não se trata aí de um love song, mas sim de um pensamento em forma de arte, misturando tristeza, alegria e inquietude: blues-rock com pop’filosofia. Os sons e visões de David Bowie parecem ser um convite para adentrar e, o que é mais importante, para se manter na atmosfera afetiva de encantamento crítico pelo mundo, aquela que levanta as questões mais fundamentais da existência. Se você estiver ouvindo a música, será tarde demais, já terá sido capturado pela pergunta e antes que perceba estará cantarolando o refrão: “Blue, blue, electric blue, that’s the colour of my room where I will live, blue, blue” [Azul, azul, azul elétrico é a cor do meu quarto onde vou viver, azul, azul (ou triste, que é o sentido da palavra blue aqui)].

De volta àquela manhã fatídica, imediatamente após o 10 de janeiro de 2016, confesso que minha primeira reação foi de revolta, pois tinha grandes expectativas de ainda conseguir ver novamente um show dele em algum lugar do planeta. Enquanto um “fã-filósofo”, eu ao menos podia me gabar de ter conseguido apreciar uma performance ao vivo, em 2 de novembro de 1997, na turnê do disco Earthling, da fase mais drumm-and-bass da sua carreira, no Rio de Janeiro. A maioria de meus amigos, tanto mais jovens como mais velhos, jamais teve essa chance. O show no Rio começou com I’m afraid of Americans [vídeo no final do artigo], famosa crítica à hegemonia econômica/cultural norte-americana no mundo. E terminou, 20 canções depois, com Dead Man Walking [vídeo no final do artigo], que também pode ser ouvida como uma crítica, mas dessa vez ao modo meio zumbi com que as pessoas se relacionam socialmente. O refrão diz: “Im a breathing, talking dead man, walking” [Eu sou um homem morto, respirando, falando e andando]. Lembro-me de ter ficado surpreso por que a casa não estava super-lotada. Como era possível que alguém em sã consciência preferisse estar em qualquer lugar naquela noite ao invés do show de um dos maiores artistas do século XX?

De qualquer maneira um incidente ficou na memória. Quando a produção resolveu jogar umas bolas infláveis grandes e transparentes para o público brincar, aconteceu que, uma a uma, foram todas explodidas em menos de 30 segundos, como se reinasse um incontrolável apetite por destruição em parte da plateia. Lembro-me que a reação de Bowie foi singular, ele grunhiu a expressão animals, em um sotaque britânico gutural. A expressão soou de forma ambivalente, pois foi acompanhada também por um sorriso visivelmente cúmplice. Pode ter sido tanto um comentário crítico, como também uma saudação de reconhecimento.  Foi o clima perfeito para a canção que veio logo em seguida, The Voyeur of Utter Destruction (As Beauty), da obra anterior 1.Outside (1995), um álbum conceitual  que girava sobre a questão se a violência podia também ser considerado uma forma de arte. O refrão sugeria uma íntima relação entre a volúpia humana por conhecimento com o prazer fascista pela aniquilação: “The need to have seen it all, the voyeur of utter destruction, as beauty” [A necessidade de ter visto tudo, o voyeur da destruição total, enquanto beleza]. A gravação da canção nesse show específico foi publicada no cd, indisponível comercialmente, intitulado Live and well.com (1999), que reúne performances ao vivo, em diferentes cidades do mundo, na turnê de 1997. Disponho com exclusividade para o leitor do Palma um link para o áudio dessa gravação. Às vezes imagino que consigo distinguir minha própria voz no meio da plateia ensandecida:

David Bowie Diamond Dogs
Capa do disco Diamond Dogs, de 1974, que causou muita polêmica e foi censurada na época do lançamento.

Só comecei a me interessar e a conhecer o rock no início dos anos 80, ao mesmo tempo que iniciava meus estudos em filosofia. Meu primeiro contato com David Bowie se deu mediado pela telona, mais especificamente em Fome de Viver (1983), de Toni Scott, com Catherine Deneuve e Susan Sarandon no elenco, onde fazia um vampiro lutando contra o envelhecimento e a morte. Muito famosa foi também sua participação no filme Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída (1981),onde interpretava a si mesmo em um show cantando Station to Station (1976) em Berlim [embora a cena tenha sido gravada em Manhathan]:

Confesso que o que mais me marcou, à primeira vista, foram seus olhos ímpares, que lhe davam uma aura de estar na fronteira entre humano e inumano. Só muito tempo depois é que descobri sua história pregressa, nos anos sessenta e setenta, encarnando os caracteres híbridos de Major Tom, Ziggy Stardust, Thin White Duke, Aladdin Sane, entre tantos outros, todos oscilando não só entre humano e alien, mas também entre humano e máquina, humano e animal, para além dos gêneros masculino e feminino.

David Bowie não foi só um dos primeiros artistas pós-modernos da história, ele também experimentou diversas possibilidades de instauração do pós-humano. Na famosa conversa com o escritor beat William Burroughs (1914-1997), realizada em 28.02.1974 para a revista Rolling Stone, Bowie diz literalmente que não se contentava somente em escrever canções, algo que considerava até um pouco antiquado. O que ele queria era realizar  suas músicas de uma forma tão corpórea e material que elas fossem capazes de afetar as pessoas não apenas como canções, mas sim como modos de existência ou estilos de vida. Nessa conversa histórica Burroughs denomina, de maneira muito perspicaz, o projeto artístico de Bowie de “Politics of Sound” [política do som], capaz de articular alternativas para a cultura sempre de forma muito sensível aos anseios dos jovens da época. Bowie parecia propor que a nossa performatividade sonora, visual, gestual e sexual é o que determinaria, em última instância, o que nos constitui enquanto seres humanos.

Aqui vale observar que a avaliação mais equivocada da história da música é aquele famoso chavão jornalístico que compara as várias estações identitárias de David Bowie às transformações de um camaleão. David Bowie pode ter sido muitas coisas, um crocodilo, um “space invader”, tal como se definiu na famosa canção de 1972 Moon age Daydream [vídeo no fim do artigo] , tudo, menos um camaleão. Esse animal é famoso porque muda a coloração da pele e se adapta ao seu meio ambiente justamente como uma estratégia de sobrevivência. O jogo de Bowie sempre foi outro, não de adaptação identitária ao meio, não de camuflagem para sobreviver, mas sim de “colocar a cabeça para fora da manada”, de experimentar diferenciações de si mesmo, que por sua vez poderiam provocar diferenciações nos outros.  Sua estratégia era a de correr riscos, sempre saindo do território de segurança, sempre ousando a passagem dos reinos (as situações sob controle) aos exílios (os terrenos incógnitos).

Duas coisas assustavam prioritariamente ao cantor, conforme repetiu diversas vezes em suas entrevistas. A primeira era o medo de enlouquecer, uma possibilidade provável para todo artista, mas muito agravada com o dado biográfico do seu meio irmão mais velho, Terry, que o apresentou na juventude ao jazz e à filosofia e que passou quase duas décadas internado com o diagnóstico de esquizofrenia. O outro grande temor de Bowie era o medo de se acomodar em uma caixinha classificatória rígida. Não é à toa que a música Changes (1971), do álbum Hunky Dory, se tornou não apenas um manifesto de uma toda uma geração, mas a marca registrada do seu caminho enquanto artista: “Ch-ch-changes, just gonna have to be a different man. Time may change me, but i can’t trace time” [Mu-mu-danças, só tenho que ser um homem diferente. O tempo pode me mudar, mas eu não posso enganar o tempo]. A famosa gagueira no refrão não é acidental, pois materializa a atmosfera de incerteza e excitação sobre os riscos e prazeres das transformações.

No day after à morte de Bowie, além da frustração e da revolta, fiquei também muito surpreso, pois ele acabara de lançar, exatamente dois dias antes da sua morte, no dia em que completava 69 anos, um novo disco, Blackstar, que ocupava desde então ininterruptamente minha playlist. A música que abre e dá nome ao disco dura 10 minutos e é uma mistura estranha de canto gregoriano, jazz experimental, techno e rock:


A letra, como a maioria das canções de Bowie, não é de fácil compreensão, mas parecia uma espécie de testamento: Não sou uma estrela de cinema, não sou um pop-star, não sou um astro de pornô, não sou uma estrela artificial, não sou um astro errante, sou uma “estrela negra”.

Pode ser que “estrela negra” fizesse alusão ao colapso do sol, ao sombrio planeta saturno (relacionado historicamente à melancolia dos estados criativos), aos buracos negros, ou simplesmente à tristeza com a iminência do fim da sua vida na terra. O vídeo oficial que acompanha a música de Bowie é ainda mais enigmático: uma mulher com cauda encontra um astronauta morto (uma referência ao Major Tom?) e leva seu crânio incrustado de joias para uma cidade, onde um círculo de mulheres performa um ritual com o crânio no centro. Bowie interpreta três figuras: um cego, um pregador e um vigarista. O disco inteiro parece girar em torno do tema da morte, especialmente na canção Lazarus, que mostra o artista já bastante debilitado pela doença.

 

Lazarus David Bowie
Cena do vídeo Lazarus

Embora pareça que David Bowie tenha se confrontado com tema apenas quando era inevitável, na verdade a morte ocupou a obra do artista desde seu primeiro disco na década de sessenta. Seu primeiro grande sucesso, Space Oddity (1969), descreve a solidão e a impotência diante da morte pelo astronauta Major Tom, à deriva no espaço, em uma típica canção de despedida: “Here am I floating round my tincan, far above the moon, planet earth is blue, and there’s nothing I can do” [Aqui estou eu flutuando em volta da minha lata, bem acima da lua. O planeta Terra é azul e não há nada que eu possa fazer…]. A música que abre seu álbum mais paradigmático, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972), chama-se Five Years e é uma espécie de profecia global de destruição. A canção descreve as diferentes reações das pessoas ao saberem que só restariam mais cinco anos de vida no planeta, algumas em prantos, outras em surtos de violência desesperada, outras ainda em reflexão introspectiva. Surpreendentemente o tom da música e do disco em geral não é nem um pouco apocalíptico, mas parece funcionar muito mais como um dispositivo de valorização da vida, dos gestos criativos e da importância de ser-com-os-outros mesmo na iminência do fim do mundo: “and all the nobody people, and all the somebody people, I never thought I’d need so many people” [E todas as pessoas-ninguém e todas as pessoas-alguém, eu nunca pensei que precisaria de tantas pessoas].

Mais tarde, em outra das minhas composições prediletas de todos os tempos, a famosa The Hearts Filthy Lesson (1995), do disco 1. Outside, Bowie  cantava o impiedoso e enigmático refrão “It’s the heart’s filthy lesson […]falls upon deaf ears” [é a lição suja do coração […], que cai sobre ouvidos surdos]. A lição suja do coração, como Bowie ele mesmo afirmou em uma entrevista da época, é o fato de que a vida é finita. Uma interpretação magistral dessa canção pode ser conferida aqui:

Além dessa pequena seleção de canções inspiradas na finitude da existência, vale ressaltar que Bowie foi um grande estudioso do budismo tibetano e também um assíduo leitor dos textos de Nietzsche, que inspirou não apenas várias de suas músicas, mas também suas performances dentro e fora do palco.

Todas essas pistas parecem sugerir que quando Bowie enfatiza tantas vezes que é uma Blackstar no seu último disco, ele não está se referindo apenas à iminência da própria morte. Tudo indica que uma das suas principais motivações estéticas e políticas como artista multimídia sempre foi a de nos lembrar da fugacidade da existência, não como um juiz ou padre acusador, mas como alguém que amava a vida justamente por conta de suas constantes mutações.Outro fã-filósofo como eu, o britânico Simon Critchley (1960-), professor da New School for Social Research / NY, autor do belo e apaixonado livro Bowie (2014), sugeriu mais tarde, em  uma coluna do New York Times, o possível nexo inter-sonoro com a canção pouco conhecida de Elvis Presley, intitulada também de Black Star (1960) e que dizia que todo mundo tem uma estrela negra sobre seu ombro, mas quando essa estrela se tornava visível, era porque seu tempo estava terminando. Pode ser então que David Bowie tenha sido durante mais de 50 anos a estrela negra do mundo, irradiando sons e visões, densos, belos e intrigantes, sobre nossos ombros, corações e mentes.

 

I’m afraid of americans – Show em NY (1997)

Dead Man Walking

Moonage Daydream

Changes

Elvis Presley – Black star

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5 thoughts on “Políticas do som na obra de David Bowie

  1. Sem palavras!!Brilhante texto!!Sou apaixonado por Bowie desde os 13 anos, hj tenho 44.Para mim nunca vai existir outro como ele, um cara genial, inteligentíssimo e muito a frente do seu tempo.Até hoje me pego pensando naquele 11/01/16!!!O texto reflete a obra magnifica dele de uma forma sincera e profunda!Parabéns!Amei!

  2. Me identifiquei muito com o seu texto! Sou professora de filosofia ha 20 anos, sou saxofonista e backing vocal de uma banda cover do Bowie e estive no show do Bowie em 1997, so que em Sao Paulo. Temos muito o que conversar! Abraçao.

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