A política da mentira

Em 1885, em Hartford, Connecticut, o escritor americano Mark Twain leu para a plateia do instituto histórico local seu ensaio “A Decadência da Arte de Mentir”.

“Notem bem o venerável ditado:”, dizia ele.

“Crianças e tolos sempre falam a verdade.”

A dedução é clara”, conclui : “Adultos e pessoas sábias nunca a falam”.

Fiquei imaginando a expressão atônita dos nobres senhores ouvindo o consagrado escritor desfilar seus argumentos. Twain não estava fazendo a apologia da mentira, claro, mas simplesmente demonstrava como ela é muitas vezes um recurso necessário para o bom funcionamento das relações sociais.

“A coisa mais sábia a fazer é nos treinar com afinco para mentir com consciência e bom julgamento; mentir com um bom objetivo, e não um maléfico; mentir para a vantagem dos demais, e não a nossa; mentir caridosamente, com humanidade, não com crueldade, desejo de magoar ou malícia…”

Seu texto conclui, em parte, que se todos sempre falássemos a verdade, a sociedade simplesmente não funcionaria. Muitos encontros sociais, por exemplo, poderiam terminar em vexaminosos desastres.

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Mark Twain

Fechei o livro e fui dormir, pensando no mundo das redes de tv religiosas, nos políticos, na publicidade, nos advogados, no universo das pequenas e grandes mentiras que nos rodeiam no dia a dia.

No dia seguinte eu me encontrava num coquetel em homenagem a uma personalidade carioca, quando fui abordado por um renomado político nacional, que se pôs a me falar de meu avô, que foi Senador. Depois de trocarmos algumas amabilidades, e já com alguns drinques na cabeça, tomei coragem e resolvi provocá-lo com a frase de Twain que não me deixava em paz. Surpreso, o político respirou fundo, pegou no meu punho, e com os olhos fixos no lustre de candelabros de cristal pendurado sobre nossas cabeças, me disse:

– Estou na vida pública há mais de 60 anos e lhe digo: o mundo não é só feito de santos, Mello Franco, claro que não! Que o diga nosso grande mestre, o impoluto Afonso Arinos, seu querido avô, que certamente viu de tudo na belíssima carreira pública que fez!

Ele olhou para mim, talvez esperando alguma reação, que não veio, então tomou fôlego e seguiu.

Apedrejar um político é fácil, rapaz, mas você já pensou nessas centenas, milhares de pessoas que abrem mão de carreiras importantes para se dedicarem ao bem público, à Républica? (nota: acentuação correta, representando sotaque regional). Pessoas que deixam suas cidades para morar naquele cangaço, naquela terra batida que é Brasília, muitas vezes sem a companhia de suas famílias, apenas para se dedicar aos outros?

Ele então fitou o botão da organização literária que levava na lapela e sorriu, como que para si mesmo. Depois sorriu para mim. Estava com a testa suada. Talvez fosse o calor do smoking.

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Foto do político jovem

Então  continuou ele veja: esta frase maliciosa de Mark Twain, que você agora me traz de forma evidentemente provocativa… na verdade, ela é, singelamente, a mais pura expressão da verdade!

Ofegante, olhou ao redor, percebendo o movimento do salão majestoso, os vestidos cintilantes, as casacas pretas, a melodia sinuosa do piano de cauda.

Veja, Mello Franco, este maravilhoso povo que nos elege, não suspeita, em sua santa ignorância, que até 1821 nossa pátria não passava de um bando de Capitanias Hereditárias, entende? Capitanias que não davam lucro nenhum, senão para a Corte Portuguesa!… Então, se Napoleão não tivesse invadido Portugal em 1807, continuaríamos a ser apenas um reles quintal da matriz, explorado por bandidos escravagistas que só aportavam estas terras em busca de dinheiro rápido e fácil! Se a República não tivesse sido proclamada, a concentração do poder e do dinheiro ficara apenas na mão da família real, seus duques e barões decadentes!

Foi então que olhou para mim com uma certa doçura.

Meu filho… posso lhe tratar assim, não?

Pegou de novo no meu pulso.

Pois então, seu avô foi como um pai para mim. Foi em grande parte pelas mãos dele que entrei nesta vida pública, que é presente, mas também é castigo…

Fiquei preocupado, ele estava muito ofegante. Não seria melhor mudar de assunto? Antes que pudesse fazê-lo, ele tomou outro grande gole do seu drink e me disse:

Então, voltando a esta questão do Mark Twain, veja, você ainda é bastante jovem, olhe para mim, veja aqui o que é idade, olhe…

O velho enrugado estava ofegante, seu corpo volumoso imprensado naquele smoking preto que parecia dois tamanhos abaixo de seu volume, mas dos seus olhos negros faiscava energia, havia ali um homem que ainda queria muito da vida, mesmo suspeitando que talvez a vida já não quisesse muito dele.

Você sabe, se não dourarmos um pouco a pílula, nosso povo sofre ainda mais, não é mesmo? Se não apontarmos para um Brasil mais bonito, mais cheio de esperança, mais pujante, o que podem esperar da vida? É isto que fazemos lá em Brasília, é a isto que o seu Mark Twain se refere, você entendeu?

Ele estava hipnotizado com sua própria voz, forte, marcante. Parecia um tribuno romano no auge do império.

Esta imprensa suja e comunista você sabe que são comunistas, não sabe? esta horda de frustrados e invejosos passa o dia tentando fazer o povo acreditar em besteiras, entende? Isto aqui era um fundo de quintal! Nosso Brasil era uma roça da coroa portuguesa!

Ele parecia perceber sua exaltação. Caiu em si, passou um lenço na testa suada e me pegou pelas mãos, me fitando com seus olhos intensos:

Sei que você é dos nossos, é escritor, pensa a humanidade, talvez seja até poeta… Você escreve poesia? Você sabe que eu, bem, eu… você… Vou indicar você para nossa confraria de escritores, você aceitaria?!! Precisamos de gente como você, o Brasil precisa! 

Foi neste exato instante que vi um clarão vermelho vindo dos vitrais do salão onde nos encontrávamos. Um batalhão vestido de preto e armado até os dentes rasgou pela multidão e arrastou o político para um camburão, sob o olhar abismado dos convidados, paralisados em seus gestos dançantes.

Ainda tive tempo de ver o político, enquanto era levado, se virar para mim e me encarar com seu olhar intenso. Ele parecia estar achando graça em tudo, mas talvez tenha sido engano meu. Tive apenas tempo de gritar para ele que meu avô não tinha dinheiro, e que ele, sim, era dono de metade daquela capital nordestina, inclusive da rede de TV local.

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Festa interrompida. http://www.bopeoficial.com

Naquele momento, a campainha do meu celular tocou e acordei daquele sonho ruim. Atendi, mas era engano. Uma voz estranha, rude, me gritava um palavrão. Na tv, que havia deixado ligada, um pastor evangélico gesticulava aos berros para a multidão.

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15 thoughts on “A política da mentira

  1. Que texto foda !
    Peço perdão pelo linguajar inapropriado, mas nenhuma outra palavra me pareceu melhor.

  2. Uma verdade usada pra magoar é pior que uma mentira gentil, acredito que isso é justo, dependendo da situação, por exemplo, uma garota corta o cabelo e fica horrível pra você, e pra muitas pessoas, porem você não vai dizer que ta feio, porque hora ou outra ela vai perceber e você sendo gentil vai deixar ele menos triste até ver sua burrada. Agora em questões a mentira muitas vezes ajuda porem muitas vezes atrapalha, assim quando você pergunta pra algum amigo seu, eu to fazendo certo isso, e ele menti pra te agradar, sendo que você quer uma opinião sincera pra saber no que melhorar, ou a mulher que não demonstra ou diz ao seu marido o que ele ta fazendo de errado que gera tanta frustração…É complicado!

  3. A confortabilidade da mentira que esquiva de constrangimentos e desconfortos da imagem no espelho, da mentira em que abriga, agrilhoa, da mentira em que se enreda e de enredos navegante, aporta se no degredo, de si mesmo, no caos de fictícios retalhos, stand do meio termo, meias verdades, venda casada,..finamente embalada…simulacro apenas… Sorve se o drinque,do “sacrifício” em que se imola o politico a bem do povo, que de ocas tabas e cavernas que gradualmente de mentiras em mentiras evoluí, de hereditárias capitanias, governos gerais e império para a gloriosa república, outro drinque afinal que de mentiras menos mal que a cá se traga portanto de mimos, acepipes, regalias, privilégios e polpudo de vencimentos que politico não é de ferro que se malha e transforma, tampouco de bigorna a pira deste “sacrificio”

  4. Mentir é covardia porque voce tem várias maneiras de falar a verdade , sem usar frases cretinas. Lidar com a verdade sempre fortalece tua humanidade,.estimula sua criatividade, e lhe conforta responsalmente em qualquer situação. de sua vida..Pois o ser humano crescer a não ter que compactuar com relações lasciva e te ajuda mais a mais formar grupos ,não perfeitos mas no mínimo de seres coerentes e ponderantes…Pois ha que refletir na escolha de enganar….

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