O mundo de Selarón

A escadaria do convento

O mundo de Selarón, é difícil encontrar no Rio quem conheça a Escadaria do Convento.

Pergunte pela Escadaria Selarón, no entanto, e alguém logo apontará a construção de 215 degraus que liga a Lapa a Santa Teresa.

Num dia de sorte, é possível encontrar, sentado num degrau ou à janela de seu quartinho no número 24 da ladeira, o homem por trás do nome: Jorge Selarón, pintor e escultor chileno de 59 anos que, há duas décadas, adotou a escadaria para transformá-la num gigantesco mosaico de mais de dois mil azulejos nas cores da bandeira brasileira.

De bigode frondoso e olhar penetrante, Selarón encarna o epíteto que cunhou para descrever sua obra-prima: “A grande loucura”.

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Foto: Rony Maltz

Azulejos de Liechtenstein

Para completar a obra, Selarón conta com a ajuda dos turistas que visitam a escadaria. “Sempre peço que mandem azulejos quando voltarem para casa.

A maioria promete, mas não cumpre”. Em viagens, caça raridades, como um velho azulejo persa adquirido em Nova York, em dezembro, por U$ 2 mil (foto).

Orgulhoso, aponta alguns dos 82 países representados na obra: Afeganistão, Luxemburgo, Liechtenstein.

A escadaria transformou-se em cartão postal do Rio e já foi cenário de clipes de U2 e Snoop Dogg e até de um ensaio da Playboy americana, recordado por Selarón com um sorriso sonhador.

Em 2005, foi tombada pela prefeitura, que concedeu ao chileno o título de Cidadão Honorário.

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Foto: Rony Maltz

Perdoe a inadimplência

Selarón deixou o Chile aos 17 anos e vagou por 57 países de Ásia, Europa e Américas antes de chegar ao Rio, em 1983.

Instalou-se na Lapa há mais de 15 anos e não saiu mais. Num dos azulejos, agradece em portunhol a compreensão da senhoria, dona Elena:

“Quiero pedir desculpas que nestos últimos anos desde que estou decorando a escadaria não foi posivel estar em dia com o meu aluguel”.

Hoje, sustenta-se vendendo, a R$ 30 reais cada, os quadros que produz em escala industrial: “Pinto cinco ou seis por dia”.

Gasta todo dinheiro e tempo no trabalho. Vive sozinho, devotado à escadaria: “Casamento tira a liberdade, filho é uma preocupação. Se tivesse família, minha vida seria outra”.

Diz que a obra só estará concluída no dia em que morrer.

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Foto: Rony Maltz

Conhece o barbudo?

Selarón começou a decorar a escadaria em 1990, colando azulejos coloridos nos canteiros. Não tinha projeto nem ambições. “Ninguém vinha ver meu trabalho, só as moscas.

Mas a beleza já me deixava satisfeito”. O tempo trouxe fama, turistas e visitantes ilustres. No começo de 2005, reconheceu um senhor grisalho que admirava a escadaria.

“Perguntei se não era ministro. Ele disse: ‘Estou de férias. Hoje sou só o José Dirceu'”. Meses antes de ser cassado por corrupção, o então chefe da Casa Civil distraía-se na Lapa.

“Ele disse que gostava daqui porque não era reconhecido”. Selarón mostrou a Dirceu um azulejo com uma figura que lembrava o presidente Lula.

“Ele riu e disse que parecia mesmo. Mas não é o Lula, é só um barbudo de chapéu”.

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Foto: Rony Maltz

Picasso, Gaudí, Selarón

A fama despertou em Selarón a suprema vaidade: “Só de olhar para a escadaria você sabe que está diante de um grande artista”.

Observando os visitantes, é capaz de distinguir de longe o mero turista de um fotógrafo profissional. Guarda numa pasta todos os artigos elogiosos que é capaz de reunir.

Orgulha-se de um em especial: uma reportagem da National Geographic que consagra a escadaria como “a maior escultura no mundo feita por um único indivíduo”.

Ao falar do próprio trabalho, coloca-se na mesma frase de Michelangelo, Picasso, Gaudí – e sempre à frente: “Barcelona é uma cidade feia e Gaudí é inferior a mim em azulejos.

Só é superior na Sagrada Família. Mas eu não faço igrejas”.

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Foto: Rony Maltz

Autorretrato grávido

A figura de uma negra grávida se insinua em todas as telas e azulejos expostos na escadaria. Selarón diz já ter pintado a imagem mais de 25 mil vezes e é capaz de rabiscá-la em menos de dois minutos.

Nos últimos anos, a grávida deixou de ser personagem periférica de quadros sobre ruas e favelas do Rio para tornar-se protagonista das pinturas.

As telas à venda na fachada de sua casa são variações do mesmo tema: grávida segura um peixe; grávida sobe o morro.

Em três quadros, ela tem uma perna amputada. No pé da escadaria, um mosaico circular retrata o corpo da mulher com a cabeça de Selarón: “De tanto pintar a grávida, acabei ficando grávido também”.

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Foto: Rony Maltz

Um problema pessoal

A onipresença da grávida na escadaria é perturbadora. Selarón tem resposta pronta para quem investiga a obsessão: “É um problema pessoal”, repete, lacônico, sempre que perguntado sobre o assunto.

Lembra o dia exato em que começou a pintar a imagem, 12 de março de 1977, mas não explica por quê.

Pressionado, perde a firmeza na voz, os olhos fogem, as mãos procuram e apertam uma pintura da grávida, até que cede: “É claro que era minha mulher, é claro que esperava um filho meu”. A criança chegou a nascer? “É um problema pessoal“.

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