Tim Maia e Nelson Gonçalves: difícil é saber renunciar

Um cabaré vazio, o drinque em punho, ternos entre o elegante e o cafona, luzes azuladas: a cenografia e o figurino acabam por tornar um pouco mais insólito o encontro entre Tim Maia e Nelson Golçalves, dois personagens brilhantes e malditos de épocas tão distantes da música brasileira. A célebre reunião ocorreu em 1985. “Renúncia”, composta por Roberto Martins e Mário Rossi, foi lançada em 1942. O sucesso foi tão grande que valeu a Nelson Gonçalves o título de Rei do Rádio. A regravação foi para um disco de duetos do velho boêmio com artistas populares na década de 80.

Nelson e Tim não tinham em comum apenas o vozeirão de peito aberto; suas vidas foram igualmente plenas de êxitos, ruínas, excessos, problemas com a lei, triunfais voltas por cima e histórias cabulosas.

Gago quando criança, Nelson ficou conhecido no bairro do Brás como o “Metralha”, pois pronunciava frases inteiras sem pausar para respirar, soltando as palavras como rajadas. Nelson foi jornaleiro, mecânico, engraxate, garçom e boxeador. Com um score de 24 vitórias por nocaute e duas derrotas, sagrou-se campeão paulista de boxe, na categoria meio-médios.

“O Brasil é o único país onde, além de puta gozar, cafetão ter ciúme e traficante ser viciado, pobre é de direita”

Tim era o segundo mais novo de 19 irmãos e disputava com eles as marmitas que o pai mandava entregar. Na juventude,  tocou com um moleque capixaba, meio fanho, em uma banda chamada The Sputiniks. Esse cara era Roberto Carlos. Jorge Ben o apelidou de “Síndico”, em W/Brasil. Apesar da persona anárquica que incorporava com frequência, Tim foi mesmo síndico, por 12 anos,  do prédio onde morava na Barra da Tijuca. Ele, aliás, chegou a cogitar candidatar-se ao Senado pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Você já imaginou como seria Tim Maia no Congresso Nacional hoje em dia? Ia  sobrar esporro pra tudo que é lado. E a julgar pelo aparente papelote de cocaína que a TV flagrou nas mãos de um parlamentar durante as discussões do Impeachment, ele teria boas companhias de farra. Quanto à corrente ideológica que seguiria, podemos encontrar uma pista em uma das frases mais marcantes atribuídas a ele: “O Brasil é o único país onde, além de puta gozar, cafetão ter ciúme e traficante ser viciado, pobre é de direita”.

Foto: https://terradegigantes65.wordpress.com
Foto: https://terradegigantes65.wordpress.com

Nelson: “Uma semana depois de morto estarão fazendo xixi na minha tumba”

Nelson Gonçalves também tinha lá suas tiradas. Sobre a falta de memória do povo brasileiro, teria dito: “Uma semana depois de morto estarão fazendo xixi na minha tumba”. Será que o Brasil honra sua memória?

A voz de Nelson era tão potente que podia cantar sem microfone. Em 1941, assumiu o cobiçado posto de crooner do Cassino Copacabana Palace, após receber o título de Rei do Rádio. Antes de tornar-se celebridade, Nelson, cujo nome de batismo era Antônio, havia sido eliminado duas vezes no programa radiofônico de calouros do compositor Ary Barroso tendo que ouvir da boca do compositor de “Aquarela do Brasil” que melhor seria se abandonasse a música e voltasse a ser garçom.

Em 1959, aos 16 anos, Tim foi viver nos Estados Unidos — país pelo qual era aficionado . Lá estudou inglês, mergulhou na soul music e no rhythm’n’blues. Sua passagem pelos EUA é obscuram, mas reza a lenda que teria morado – sem candidatar-se a síndico – em 21 endereços diferentes – antes de ser deportado. A história que se conta é que Tim teria sido preso após uma trip alucinada de Nova Iorque a Miami, ao lado de uma turma da pesada, aprontando de tudo e mais um poucos.

 Ao ser mandado de volta, teria ouvido da boca de um yankee, talvez um eleitor do Trump hoje em dia: “Nunca mais volte aqui”. Mas ele voltou, um ano antes de morrer, para refazer a mesma viagem — só que numa limusine. A ideia era percorrer os lugares marcantes do seu lendário “on the road”. 

Nelson Golçalves e Tim Maia: figuras polêmicas

Tanto Tim quanto Nelson cometiam excessos com certas substâncias. Em 1965, decadente e há anos sem cantar, Nelson foi preso com cocaína e acusado de tráfico. Acabaria inocentado, mas o desgaste à sua imagem foi grande. Após a ruína, quando quase foi a bancarrota, o Metralha retornaria mais uma vez às rádios.

Já Tim Maia chegava a tomar três garrafas de uísque por dia. Uma história famosa, relatada por Nelson Mota na biografia sobre o cantor é que deu à mistura de maconha e cocaína à bebida escocesa o singelo nome de “triatlo”.

O Rei do Rádio dominou as décadas de 40 e 50. Tim apareceu em 1970, ao ser gravado por Elis, mas o seu auge foi mesmo na década de 80, quando emplacou vários hits. Em 75 e 76 lançou os inusitados manifestos místicos com roupagem soul, Tim Maia Racional 1 e 2. Os discos acabaram virando cult e, apesar de estarem fora de catálogo por problemas judiciais, foram amplamente difundidos através da Internet, o que ajudou a criar uma nova e jovem legião de fãs do Síndico – que se desiludiu com a fase mística.

Tim já foi chamado de Louis Armstrong brasileiro. Nelson era fã incondicional de Chico Alves e pertencia a uma última geração de cantores de vozeirão grave, pré-João Gilberto, intérpretes de boleros e sambas-canção. “Renúncia” foi um dos seus maiores sucessos.

Tim e Nelson morreram no mesmo ano, 1998, deixando saudades, histórias infindáveis e um legado musical definitivo. Cantando no cabaré, injetando um quê de deboche em uma letra melodramática, eles trocam olhares e sorrisos de cumplicidade. Identificação entre dois homens, duas forças desgovernadas que detestavam o tédio e sabiam muito bem que na vida “o difícil é saber renunciar”.

Veja o vídeo de Nelson Golçalves e Tim Maia – Renúncia

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10 thoughts on “Tim Maia e Nelson Gonçalves: difícil é saber renunciar

  1. Me permita uma observação. Fui advogado do Nelson. Ele nasceu no Rio Grande do Sul vindo de Santana do Livramento, onde nasceu. Nunca conheceu seus pais. Era órfão. Veio para o Rio sozinho como pugilista. E pelo que ele próprio me contou não conheceu seu pai. Assim, não poderia ter vindo com o pai para o Rio. Desculpe-me.

  2. Ele é chamado de sindico na musica do jorge ben porque em um determinado momento de sua vida ele comprou um condomínio/edifício no rio e era o sindico do lugar! (No “por toda a minha vida” da globo eles falam isso!)

    1. E ele ficou famoso após ter composto uma musica pro Roberto Carlos (“não vou ficar”). Quando ele gravou com a Elis ele ja era relativamente famoso, ja tinha lançado oo primeiro LP que tinha “nao quero dinheiro” por exemplo e ja era conhecido

  3. bela reportagem sobre esses personagens da nossa musica faltou incluir o grande raul que tinha o mesmo perfil de
    viver intensamente cada segundos de suas vidas descanse em paz tim nelson e raul

  4. Oi pessoal
    Esse site é mesmo surpreendente, queria dar os parabéns pelo trabalho de vocês.
    Sempre é bom obter novos conhecimentos, obrigado 😉

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