Sina de Samurai

Como Djavan se tornou um dos nomes mais influentes da música brasileira nas últimas décadas

Djavan talvez seja um dos poucos artistas do time principal da chamada MPB a ter vivenciado na carne as agruras da pobreza do país. Se é raro uma canção sua tematizar a exclusão social ou racial, nas declarações dadas por ele ao longo da carreira essas questões afloram.  Em entrevista publicada em um de seus songbooks, Djavan lembrou o preconceito vivido em sua meninice em Maceió: “E eu tinha um agravante, era preto e pobre. Era um racismo duplo. Por isso entrava pela porta dos fundos na casa dos amigos que tinham piano”.

Já em 1991, o compositor declarou ao Globo, numa época em que costumava fazer críticas ao mercado fonográfico brasileiro: “Seria ótimo que houvesse mais negros no rock brasileiro”.  Em outro depoimento, dado para Marcos Preto, na Folha de São Paulo, em 2010, ele contou que a mãe lhe aconselhava: “Meu filho, você tem que saber onde é que você entra. Você é negro. Tem que se cuidar .(…) Ela dizia isso no afã de me proteger e me reprimia (…) O negro se cria assim, traz essa repressão no espírito. Já não tenho mais um décimo da timidez que tive, e a vida nos ensina que os lugares podem ser nossos. Mas esse instinto de preservação fica ainda um pouco no sangue.”

Nesse ambiente de limitações materiais, a mãe e a música duas coisas que pareciam se confundir foram essenciais para ele.  Aliás, foi a mãe quem inventou o nome do filho  e é difícil pensar em um nome mais sonoro e musical do que Djavan. A história da escolha tem um quê de mitológico. Grávida, ela um dia sonhou com um grande navio. No casco, a embarcação onírica estampava essa misteriosa palavra: “Djavan”.

A mãe era uma mulher humilde e alegre que vivia cantando Jackson do Pandeiro, gostava de “armar corais” enquanto lavava roupas, regendo as outras lavadeiras na beira do rio, e inventava de improviso canções para niná-lo. Muitos anos depois, o próprio Djavan comporia um acalanto para a filha caçula, a bela e algo assustadora “Dorme, Sofia”. 

Ainda bem menino, ele brincava no violão de amigos, mas não podia ter o seu. O primeiro foi presente de um camarada mais velho, funcionário público. Já ali, era impossível não notar o talento bruto e exuberante de Djavan. Apesar de reconhecer o dom artístico do filho, a mãe queria que ele seguisse carreira militar. Foi aí que o cabra se mandou. Pra Recife, onde trabalhou na fábrica do refrigerante Crush ele conta que só fazia beber refrigerante o dia inteiro, mas, depois de um mês, começou a passar mal. Largou o emprego. Foi também office-boy na White Martins. Em Pernambuco, morou com um primo que não gostava dele e o tratava com frieza. Mais um dos conflitos e rejeições que marcaram suas lembranças nas entrevistas que deu.

Os depoimentos não deixam dúvidas que Djavan é um cara que lidou com um mundo arisco e carrega marcas. Sua música, porém, é quase sempre leve, quase sempre flutuante como se ali no mundo dos sons ele encontrasse o refúgio e o grande prazer da vida. A natureza as plantas, os bichos, os rios, oceanos, as árvores e seus nomes sempre foi um dos seus grandes temas e paixões na música. Assim como o poder do amor (muitas vezes bem carnal), o querer que não cabe no coração e, se não mata, fere. Mas há ainda muitos outros temas e assuntos que o cativam.

De volta a Maceió, algum tempo depois, Djavan fundou uma banda chamada LSD (Luz, Som e Dimensão). Tocavam basicamente Beatles e viraram reis no circuito de bailes e clubes da Alagoas. Pintou grana, enfim. Djavan era band-leader, cantava e tocava guitarra solo, sabia o solo de “Something” impecavelmente. Era um garoto que amava os Beatles e a bossa nova.  Ele já compunha, na época, mas suas músicas eram consideradas “muito complicadas” pelos outros membros da LSD. Ao completar 60 músicas, resolveu se mudar para o Rio de Janeiro e tentar gravar as próprias canções.

Djavan Caetano Viana chegou ao Rio de Janeiro “sem um amigo, sem um contato, Cr$1800, a cabeça cheia de sonhos e canções”. O ano era 1973. Veio grávido de canções, deixando Aparecida, a namorada, em Maceió. Aprender depressa a chamar o Rio de realidade seria um processo árduo. Na primeira noite, dividiu um quartinho de empregada na Gávea com um amigo, mas depois teve que sair da casa e passou a partilhar um quarto em Copacabana com um cara aleatório que nunca falava com ele.

Foram anos difíceis.  Ainda nos primeiros anos cariocas, declarou: “Trago para o Rio os problemas do homem do Nordeste, não como objetivo, mas na minha pessoa” Uma das muitas indagações que perturbavam sua cabeça era “Como fazer (canções com sotaque nordestino) se Luiz Gonzaga já fez tudo?”.

Foi morar no Catumbi com Cida e os filhos Flávia e Max. Teve que se virar. Fez temporadas cantando em boates de Copacabana. À meia luz nos salões enfumaçados cheirando a uísque, aprendeu um monte de “coisas boas e coisas ruins”. Era um trabalhador da música.  Conversar com as pessoas e compreender as razões do público para querer ouvir cada canção lhe proporcionou um conhecimento que considerou muito útil. A limitação do repertório, porém, o cansava.”Era um saco, porque tinha que cantar samba o tempo todo”. Queria mostrar suas canções. Será que um dia conseguiria?

A destreza e a originalidade de suas interpretações acabaram chamando a atenção de gravadora Som Livre. Mas começou gravando músicas de outros compositores como intérprete: “Me usaram para gravar músicas de novelas”. A sorte de Djavan começaria a virar depois do sucesso de “Fato consumado”, no Festival Abertura, da TV Globo, em 1975. Foi a primeira vez que apresentou uma música própria a um público tão grande.  A partir daí sua carreira deslancharia.

Djavan

Lapidando o sonho

Depois de entrar pela porta dos fundos na casa dos amigos que tinham piano, Djavan abriu com belíssimas e elogiadas composições o caminho num meio musical cheio de panelinhas e difícil de penetrar.  Por mais que tenha feito parcerias (inesquecíveis) com Chico Buarque e sido gravado e elogiado por Bethânia, Caetano, Nana, Gil etc., ele se manteve, de certa forma, a uma certa distância, desenvolvendo uma linguagem musical profundamente singular. Tempos depois, já nos anos 90/2000, seus estilo seria tomado de “empréstimo” por muitos músicos. Críticos como Antônio Carlos Miguel já chegaram a falar em um “padrão-Djavan”, alegando, contudo, que isso é um trunfo para  música popular brasileira.

A influência djavaneana não está apenas em referências mais óbvias, como, claro, Jorge Vercillo, mas inúmeras vozes famosas no pop de pegada brasileira atual bebem muito no compositor alagoano. Por exemplo: Seu Jorge, Adriana Calcanhoto, Cassia Eller, Lenine (escute a batida inicial de “Doidice”, por exemplo) e muitos outros têm forte presença do compositor alagoano em seus trabalhos. É sintomático que os Racionais MC’s geralmente avessos a pontes com a MPB tenham citado Djavan nas lembranças resgatadas no rap “Quanto vale o show?”: “O pica era o Djavan/ O hit era o Billie Jean”.

É muito curioso notar que, nos anos 80, Djavan fez, em diversas ocasiões, pesadas críticas às grandes gravadoras brasileiras por, nas suas palavras, “poluírem e monopolizarem as rádios, se interessando apenas por modismos”. A imprensa musical também viraria alvo de sua ira de tubarão. Por conta disso, o compositor julga ter sido “um pouco escolhido” por alguns jornalistas para Cristo da vez. Na entrevista, dada em 1989 ao repórter João Carlos Pedroso, ele garantia que jamais faria música “usando fórmulas para tocar no rádio”.

Um dos primeiros a implicar com as letras de Djavan foi o grupo de humoristas “Planeta Diário”, uma das origens do Casseta & Planeta. Versos como “zum de besouro, um imã” e “o amor é azulzinho” foram sacaneados. Até hoje, alguns humoristas zoam o suposto nonsese de suas letras, como se clareza cristalina fosse exigência na arte das letras musicais, primas da poesia em seu alcance metafórico. Basta pensar em Jorge Ben, Luiz Melodia, Tim Maia etc. para ver como esta ideia não bate bem. Apesar de ter muitas letras escritas num estilo poético mais “convencional”, Djavan prefere brincar com os sons das palavras e com as imagens que se sobrepõem, como em “Capim”: “Capim do Vale, vara de goiabeira na beira do rio paro para me benzer”. Ou em “Lilás”: Raio se libertou, clareou muito mais/ Se encantou pela cor lilás/ Prata na luz do amor/ Céu azul”.

São sucessões de palavras inesperadas, jogando com as acentuações tônicas, imagens surpreendentes, como em “Outono”: “Sedução, frenesi/ Sinto você assim, sensual, árvore”. Sem a verve poética clássica de um Chico ou um Caetano, egresso de um mundo com muito menos referências literárias (apensar de ter se tornado um grande leitor de poesia e História), Djavan se lançou num estilo próprio, a um só tempo intuitivo e elaborado, fazendo muitas vezes jogos de palavras com liberdade e desprendimento do sentido. No salão literário dos letristas, poetas e críticos, porém, ele também teve que entrar pela porta dos fundos, e ainda hoje há quem o relegue  a esse lugar.

Djavan vidas pra contar

Um inventor

Djavan é um daqueles músicos que podemos chamar de “inventores”. Pode-se não gostar de seu estilo, mas é impossível dizer que ele carece de originalidade. Duas forças se manifestam fortemente em sua canção, desde o começo da carreira. A primeira é paixão pelas fusões, misturas imprevisíveis de ritmos e gêneros musicais.  A segunda é  o encanto pelos sons. Seja dos acordes, dos timbres dos arranjos que faz ou, lógico, das palavras que escreve e canta.

Nos anos 80, o compositor também criticava as gravadoras brasileiras por priorizarem o rock comercial, mais barato para gravar e produzir. As corporações da música se esqueciam, dizia ele, que o rock, ao contrário dos ritmos genuinamente brasileiros, não era exportável para o mundo. “O que eles querem [ lá fora ] é a diferença, algo rico e original”.

Em 1982, ele estourou com “Luz”. Gravado nos EUA, o disco trazia hits como “Sina”, “Açaí”, “Capim”, “Esfinge” e “Samurai”, com a luxuosa participação de Stevie Wonder na gaita.  O compositor voltaria aos EUA dois anos depois para gravar “Lilás”, uma ousada tentativa de entrar no mercado americano, objetivo que orientou também o disco seguinte “Não é azul, mas é mar”.

A jornalista e crítica musical Ana Maria Bahiana escreveu na época que a imersão de Djavan no universo americano através do produtor Erich Bulling e dos músicos de estúdio que o acompanharam “vestiu as audácias melódicas de Djavan com uma bem-comportada embalagem ao gosto das rádios de FM de toda a América (agora o continente), e, quiçá, do mundo”. Bahiana notava que, a despeito dos investimento sem gravação e divulgação, os discos dos artistas brasileiros produzidos para o mercado norte-americano não alcançavam os críticos mais influentes e passavam quase batidos pelo grande público.

Mas para o mercado brasileiro, esta formatação das composições a um padrão mais americano, mais puxado para o R&B e o pop negro, acabaria marcando a sonoridade de Djavan para sempre, influenciando a música popular brasileira de forma avassaladora.

“Sempre quis ser popular fazendo o que concebo como arte. Mas muitos têm a visão elitista de que um artista não pode ser popular e sofisticado ao mesmo tempo. Fui muito criticado por isso”, declarou ele, certa vez. Alguns discos foram necessários para que Djavan depurasse o estilo que buscava. Em sucessos radiofônicos como “Eu te devoro”, de Bicho Solto (1998), ele parece ter atingido o objetivo dentro da linguagem que procurava: algo bastante funkeado, bastante pop, com levadas de violão e guitarra bem dançantes, harmonias surpreendentes melodias originais e pegajosas, ao mesmo tempo.

Em 1999, ele lançou o enorme sucesso “Djavan ao vivo”, dois discos duplos, nos quais relia sua obra dentro dessa pegada pop certeira.  Ali, o “padrão Djavan” foi sacramentado, não para exportação, mas para a conquista triunfante do mercado brasileiro. Nos discos seguintes, em paralelo a esse percurso pop-radiofônico, ele continuou dando vazão ao seu “prazer imenso pela diversidade”, compondo em vários estilos e linguagens diferentes do flamenco à valsa, do blues ao choro.

Essa longa jornada faz de Djavan, o samurai alagoano, não apenas um dos maiores vendedores de discos do Brasil, mas o maior arrecadador de direitos autorais por canções tocadas em bares e casas de música ao vivo. “Por onde ando, topo sempre com uns dez cantores parecidos comigo, cantando o meu repertório e com a voz igual à minha”, declarou à Revista Veja, em 2004.

Não deixa de ser bastante irônico que o compositor que se insurgiu, nos anos 80, contra a padronização da música brasileira nas FMs tenha se tornado ele próprio (ou uma vertente do seu multifacetado trabalho) um novo padrão.Por outro lado, é realmente um luxo termos um Djavan como modelo de canção pop brasileira.  

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24 thoughts on “Sina de Samurai

  1. Falou e disse tudo!! Djavan é um dos mais originais cantor da MPB, que aos poucos sedimentou seu padrão de qualidade, sempre sofisticado, qualidade ímpar nas letras e arranjos, que muitas vezes fogem do padrão tradicional, elegantemente dissonante. Sou super fã desse samurai!! vida longa a Djavan!!

  2. Simplesmente amo Djavan que ótimo que ele é assim tao diferente! Tao maravilhoso! Adoroooooo

  3. Acho ruim que nosso mercado cultural priorize certos estilos musicais em determinadas épocas. A produção de grupos de rock não deveria ser tão mais caro do que a produção dos artistas solos da mpb. A diferença básica é que grupos não pagavam por instrumentistas profissionais nas gravações. A arte brasileira raramente atingiu os mercados estrangeiros. Acho que a gravação do disco dele com músicos estrangeiros foi uma tentativa de marketing dele e da gravadora para se tornar mais conhecido fora do país. Mas os mercados latinos dos países mais ricos são fechados também.

  4. Quando o cantor do ano é o Luan Santana e a Anita é mais do que nunca preciso, necessário “djavanear” a música brasileira, introduzir suingue, ritmos variados, fusões e uma poesia original e fantástica como a de Djavan. Tivessemos mais uns 3 Djavans por aí e a nossa MPB seria outra coisa

  5. Fiquei triste em ele não mencionar a participação do “Show 1º de maio” comemoração essa ao grande mestre luiz Gonzaga no ano de 1981, no Rio Centro, no dia do trabalhador, onde explodiu a bomba que vitimou quem estava afim de acabar com todos nos, lembrete ~roteiro de Chico Buarque com direção de Fernando Peixoto, e eu Vladimir Gonçalves era o assistente de direção.

  6. Falar de Djavan Viana é simples basta falar do amor em todas.as suas formas e cores de poesia ritmos e sons ímpar de amigo leal de amor a todos os elementos da natureza e principalmente de amigo é um ser humano maravilhoso as qualidades são tantas que se tem algum defeito em meio ao brilho sumiu… Amorosamente…..Eu.

  7. Gosto do Djavan e da sua sonoridade desde que ouvi Alegre Menina pela primeira vez na voz dele.
    À época do festival em que ele defendeu Fato Consumado e conquistou o terceiro lugar, em 1975 em São Paulo, eu estava lá e tive a oportunidade assistir todas aquelas feras todas: Melodia, Hemeto, Reginaldo Bessa (O tempo na para na curva….), Carlinhos Vergueiro, Alceu Valença (Vou danado pra Catende…).
    Uma canção que ele gravou e que gosto muito é Aboio Blues, ela me envolvo em viagens transcendentais, que delírio!
    Amo tanto o Djavan e sua obra que em livro da minha autoria denominado Amórficos tem um poema dedicado a ele.
    Para citar só mais uma canção dentre tantas que amo, Estória de Cantador é espetacular.
    Viva Djavan!

  8. Djavan é um clássico, que se reinventa sempre. É melodia, é pureza na voz, no tom, e sua música é surreal e linda, é amor e fantasia. É Alagoas, é Djavan!

  9. Belo texto. Tenho o Djavan como ídolo. Quando posso, fico dia in bueiro ouvindo Djavan. Mas uma ressalva: linha que tem a frase: sedução, frenesi / sinto você assim/sensual, árvore…. não é da música ” Sedução “. E sim da música ” Outono”.

  10. Olá ,muito bacana essa materia ,sou fã de Djavan ,já fui cover dele em minha cidade Castro Alves ba.,inclusive meu filho de 18 anos tem seu nome ,sou compositor, cantor multi instrumentista .

  11. Excelente matéria! A melodia de Djavan é muito rica! Sua música influência a todos, mas vejo um pouco de Steve Wonder, além de outros ídolos pop em seu som! Seus sambas são super originais! Ele imprime uma batida única em seu violão, assim como João Bosco o fez também. Vida longa ao mestre!

  12. Maravilhoso texto. Parabéns Pedro pelo ponto de vista que exalta as qualidades e a história desse nosso gênio da música!

  13. este cara e o mais sensacional dos artistas brasileiros igual não ah uma porcaria por ai chamado de rei eis que este samurai alagoano e oh rei da nossa musica sou fã tenho todos seus cds vida longa ao rei djavan

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