Cartola no mundo do moinho

No Morro da Mangueira, até 1974, um dos maiores poetas da música brasileira vivia no anonimato. Angenor de Oliveira, mais conhecido como Cartola, compositor com o poder de transformar em poesia o simples e o banal, viveu esquecido pela indústria fonográfica até sua velhice. Mesmo sentindo na pele a força que esse mundo/moinho é capaz de exercer, Cartola levou a vida a sorrir e a compor canções que ficaram eternizadas na MPB.

A Alvorada

Criado no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, o pequeno Cartola ouvia seu pai tocando violão e cavaquinho nas rodas de samba do Catete e ficava encantado. Sua curiosidade musical era tão grande, que diversas vezes fugiu de casa e foi à igreja só para ouvir música sacra. O pai era um homem muito rigoroso e não deixava que o filho tocasse em seus instrumentos. O menino então observava seu pai ao violão e, quando o este saía para trabalhar, reproduzia, escondido, os acordes que havia memorizado.

Cartola

Após passar por problemas financeiros, a família Oliveira foi morar no morro da Mangueira e, aos 11 anos de idade, Cartola foi obrigado a trabalhar em uma gráfica para ajudar nos gastos de casa. Sua relação com o pai sempre foi conturbada e, com a morte de sua mãe, as coisas ficavam cada vez mais difíceis entre os dois e as brigas mais intensas. Com a piora da relação, o pai foi embora do morro com sua irmã, dizendo: “Vou embora deste morro, mas deixo um Oliveira para fazer a vergonha da família”. Aos 17 anos Cartola estava vivendo sozinho na Mangueira.

Para se sustentar, Angenor começou a trabalhar como pedreiro de obras e passou a reparar nas moças bonitas que passavam pela rua. Com a intenção de parecer um pouco mais galante – e também para não sujar o cabelo de cimento –, usava um chapéu coco, que limpava quando deixava o trabalho, a caminho das rodas se samba. O apelido pegou por conta do hábito do boêmio de sempre chegar no samba elegante: Angenor agora era conhecido como Cartola da Mangueira.

O caminho para a música foi natural. Ainda jovem, Cartola conheceu Carlos Cachaça, um malandro do morro que adorava farra e carnaval, e os dois começaram uma amizade e parceria que renderam sambas como “Alvorada” e “Quem me vê sorrir”. Em 1925 fundaram juntos o Bloco dos Arengueiros, que viria a se tornar a Estação Primeira de Mangueira. Cartola escolheu as cores da escola, compôs “Chega de Demandas”, seu primeiro samba-enredo, e deu o nome “Estação Primeira” à escola porque era a primeira parada do trem, que saía da Estação da Central para o subúrbio, onde havia samba.

 

Cartola e Dona Zica

A figura da mulher sempre foi motivo de grande inspiração nas músicas de Cartola e, talvez por ter perdido sua mãe muito cedo, as mulheres que passaram na vida do compositor assumiam para ele uma importância central. Em sua vida passaram algumas mulheres que lhe fizeram tanto bem como mal, mas foi em Dona Zica (nome real, Euzébia), sua última esposa, que Cartola encontrou a combinação perfeita de amor, companheirismo e samba.

Dona Zica conhecia Cartola desde moça, eram vizinhos no morro da Mangueira, mas na época ela estava noiva e ele era casado, então os dois ficaram apenas amigos. Depois de ficar viúvo de sua primeira esposa, Deolinda, por quem também foi muito apaixonado, Cartola foi morar na comunidade do Cajú, onde viveu por quase 10 anos até reencontrar Zica, que, depois de 20 anos casada,também perdeu o marido. Zica o encontrou em uma fase difícil da vida: trabalhava como lavador de carros no bairro de Ipanema, estava completamente entregue às bebidas e sua carreira como músico havia ficado para trás. Apesar de tudo, os dois se apaixonaram. O namoro fez Cartola voltar para a Mangueira,e não tardou até que Zica e ele virassem um casal emblemático e cativante. Depois de algum tempo juntos, em 1964, resolveram oficializar a união e,antes de se casarem, Cartola compôs o samba “Nós dois” em homenagem à esposa e ao casamento: “Nada mais nos interessa/ sejamos indiferentes/ só nós dois, apenas dois/ eternamente”. Uma pequena curiosidade é que, somente no dia do casamento, no Cartório, foi que Cartola descobriu que se chamava Angenor… Sim, Angenor, porque até o momento ele jurava que seu nome era Agenor, sem a letra “n”, tendo sempre assinado desta forma.

Cartola e Paulinho da Viola

Em 1957, o jornalista Sergio Porto encontrou Cartola trabalhando como lavador carros no bairro de Ipanema, o que lhe causou muito espanto. Sergio, então, resolveu ajudá-lo, escrevendo uma matéria sobre o cantor, o tornando mais popular entre os artistas e fazendo com que este começasse a tocar em algumas rádios e voltasse a compor sambas. A melhora na popularidade, atrelada aos dotes culinários de Dona Zica, acabaram levando, posteriormente, à criação da casa de samba e restaurante Zicartola, que virou o ponto de encontro dos maiores sambistas, jornalistas e intelectuais do Rio de Janeiro. Grandes nomes como Pixinguinha, Tom Jobim e muitos outros frequentavam a casa. Paulinho da Viola praticamente iniciou sua carreira por lá, onde ganhou seu primeiro “cachê”, que não era uma quantia excepcional, mas foi dado de coração por Cartola para o novato: “Toma aqui, para a sua passagem”, como contou Paulinho em uma de suas entrevistas. Cartola nutria um apreço e admiração muito grande por Paulinho, que considerava quase como o filho que não pôde ter, devido à sua esterilidade.

Devido à má administração, o Zicartola foi fechado. Cartola e Dona Zica, que moravam no mesmo lugar onde funcionava o restaurante, foram despejados e tiveram que ir morar com o pai de Cartola. Durante esse período, a carreira do cantor entrou novamente em declínio, mas Zica sempre esteve ao seu lado, lhe dizendo que tudo ficaria bem. Os dois viveram juntos por 26 anos, até a morte de Cartola em 1980.

 

Reconhecimento tardio

Os olhos e ouvidos da indústria fonográfica, mais interessados no que pode se tornar mercadoria rentável e de fácil vendagem, ainda hoje se fecham para tantos músicos e compositores competentes, como se fecharam para o poeta das rosas. Nos anos 70, Cartola ainda vivia longe das rádios, continuava pobre e fazendo poucos shows. Sua carreira passou por períodos oscilantes de sucesso e fracasso, e sua importância para a música brasileira foi reconhecida tardiamente.

Somente em 1974, aos 65 anos, Cartola teve a oportunidade de gravar seu primeiro disco. O produtor Pelão foi o responsável por abraçar a arte do cantor e correr atrás das gravadoras até que conseguisse alguém disposto a investir. Pelão contou mais sobre o processo até a gravação do disco em uma de suas entrevistas: “Uma noite, depois de cumprir o roteiro habitual pelos meus bares preferidos, o Alemão, na Avenida Antártica, e o Bar do Zé, na rua Maria Antônia, fui até o Jogral, que já estava no seu terceiro e último endereço, na Rua Maceió. Entrei no Jogral e dei de cara com o Aluízio Falcão, que estava tão bêbado quanto eu. Então me ajoelhei diante dele e implorei: Aluízio, me deixa produzir um disco com o Cartola! Mas Aluízio falou: ‘Nós dois estamos de cara cheia, não dá para falar de trabalho deste jeito. Amanhã, na Marcus Pereira, a gente conversa.’”. Infelizmente, Marcus Pereira, dono da gravadora homônima, não estava interessado em Cartola: “Esse tipo de disco não vende”.

Dois meses depois da tentativa fracassada, Pelão encontrou o Jornalista Maurício Kubrusly, que trabalhava para o Jornal da Tarde, a quem contou sobre seus últimos projetos e sobre o disco de Cartola que estava sem expectativa alguma de sair. No dia seguinte, Maurício publicou uma matéria que dizia “Vem aí o melhor disco do ano: o primeiro LP de Cartola”. Quando leu a matéria no jornal, Marcus Pereira autorizou o lançamento imediatamente e o disco foi eleito pela crítica como o melhor de 1974.

 

Cartola no mundo do moinho

Com o sucesso, Cartola conseguiu conquistar sua casa própria, verde e rosa, no morro da Mangueira, onde foi tirada sua foto mais famosa ao lado de Dona Zica, que ilustrou a capa de seu segundo disco. Foram as rosas de seu quintal a grande inspiração para a música “As Rosas não falam”, que renderia ao cantor o apelido de “Poeta das Rosas”.

Cartola As Rosas não Falam

A casa era muito freqüentada por amigos, músicos e artistas; a grande movimentação em um momento em que o cantor estava cheio de shows marcados, já muito cansado pela idade e após descobrir uma doença grave que mantinha em segredo, fez com que, em 1978, o casal saísse da Mangueira para ir morar no bairro de Jacarépaguá, buscando mais sossego e na intenção de que Cartola continuasse compondo suas músicas com mais tranqüilidade.

A carreira do cantor não demoraria a findar. Escondendo o câncer de todos por algum tempo, mas já sabendo que seria terminal, Cartola compôs seu samba “autonomia” que demonstrava sua vontade de continuar a viver.

“É impossível nesta primavera, eu sei
Impossível, pois longe estarei
Mas pensando em nosso amor, amor sincero
Ai! se eu tivesse autonomia
Se eu pudesse gritaria
Não vou, não quero
Escravizaram assim um pobre coração
É necessário a nova abolição
Pra trazer de volta a minha liberdade
Se eu pudesse gritaria, amor
Se eu pudesse brigaria, amor
Não vou, não quero.”

Três dias antes de sua morte, Cartola recebeu de Carlos Drummond de Andrade uma última homenagem. O poeta escreveu a crônica “Cartola no mundo do moinho”, talvez uma de suas últimas alegrias na vida. O cantor colou a crônica na parede do seu quarto, tamanha felicidade.

“Cartola discorrendo com modéstia e sabedoria sobre as coisas da vida. ‘O mundo é um moinho…’ O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, o trigo ou o milho que se deixa pulverizar. Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas o humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada(…) o jeito de Cartola botar em lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação.” (Trecho de Cartola no mundo do moinho – Carlos Drummond de Andrade)

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5 thoughts on “Cartola no mundo do moinho

  1. Ninguém menciona, mas Cartola e D.Zica mantiveram nos anos 70, por um curto período de tempo, um bar na praça da Vila Formosa na Zona Leste paulistana.

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