Cariocas são inconscientes

Cariocas são inconscientes

Os japoneses são silenciosos; os argentinos, arrogantes; os italianos, exagerados … e os cariocas, como são?

A resposta não surge de imediato. A primeira imagem é uma praia repleta de gente num domingo de sol, o grito uniforme de um gol do Flamengo, a cerveja no bar, as vozes estridentes nos restaurantes, mulheres de corpos esculturais… mas como são os cariocas?

Busco um carioca típico e não o encontro; penso em muitos cariocas e posso descrevê-los com facilidade. São superficiais, pouco informados e inteligentes. Inteligência significa mente e olhos abertos para as surpresas, humor na ponta da língua e generosidade, improviso.

O verão perpétuo esquenta a cabeça, por isso para o carioca a História não importa nem pesa, ele simplesmente não a tem em conta, se esquece dela de imediato, porque o presente desliza como um chope gelado, de modo constante e contínuo.

O futuro que tira o sono do europeu não preocupa o carioca, porque o Deus que criou praias e montanhas numa cidade realmente maravilhosa certamente está trabalhando para resolvê-lo.

 

Amor, sexo e poesia

O carioca é feito de amor, sexo e poesia – apesar de às vezes se esquecer disso – e, na verdade, creio que o mas significativo traço desse povo é a amnésia. Não a amnésia trágica do Alzheimer, mas a amnésia irresponsável do princípio do prazer, atacada furiosamente pelo princípio da realidade. Até hoje, o prazer é triunfante em toda a Baía de Guanabara.

O carioca sempre conviveu com turistas; o “gringo” é tão constante em sua paisagem como o coqueiro: ele o acolhe e respeita sem perder o humor. Não há racismo nas praias, as peles são de todas as cores e todos os sexos convivem em rara harmonia.

O carioca é Copacabana, se bem que Copacabana não é absolutamente nada, o que de fato não tem nenhuma importância. O que é importante?

A vida, o calendário que fica careca com o passar dos dias, o verão que segue o verão depois do verão. Não há estações, por isso não há passado, presente ou futuro. Há, sim, um presente cenográfico infiltrado no inconsciente, um inconsciente no verdadeiro sentido da palavra.

Nada mais sábio, nada mais eterno. Os cariocas são inconscientes.

* Alberto Goldin, psicanalista, é argentino e mora no Rio há 29 anos

Foto: Prosa em poema

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